sexta-feira, 2 de junho de 2017

Navio Negreiro (parte IV) Exercícios com gabarito


O texto que segue, a parte IV de "O navio negreiro", é a descrição do que se via no interior de um navio negreiro. Perceba a capacidade de Castro Alves em nos fazer ver a cena, como se estivéssemos num teatro.

Era um sonho dantesco... O tombadilho,
Que das luzernas avermelha o brilho,
Em sangue a se banhar.
Tinir de ferros... estalar do açoite...
Legiões de homens negros como a noite,
Horrendos a dançar...

Negras mulheres, suspendendo às tetas
Magras crianças, cujas bocas pretas
Rega o sangue das mães:
Outras, moças... mas nuas, espantadas,
No turbilhão de espectros arrastadas,
Em ânsia e mágoa vãs.

E ri-se a orquestra, irônica, estridente...
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais...
Se o velho arqueja... se no chão resvala,
Ouvem-se gritos... o chicote estala.
E voam mais e mais...

Presa nos elos de uma só cadeia,
A multidão faminta cambaleia,
E chora e dança ali!
Um de raiva delira, outro enlouquece...
Outro, que de martírios embrutece,
Cantando, geme e ri!

No entanto o capitão manda a manobra.
E após, fitando o céu que se desdobra
Tão puro sobre o mar,
Diz do fumo entre os densos nevoeiros:
"Vibrai rijo o chicote, marinheiros!
Fazei-os mais dançar!..."

E ri-se a orquestra irônica, estridente...
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais!
Qual num sonho dantesco as sombras voam!...
Gritos, ais, maldições, preces ressoam!
E ri-se Satanás!...

açoite: chicote.
arquejar: ofegar.
dantesco: relativo às cenas de horríveis narradas por Dante Alighieri em sua obra Divina comédia, na parte em que descreve o inferno.
luzernas: clarões.
tombadilho: alojamento do navio.
turbilhão: redemoinho.
vãs: inúteis, sem valor.

1. O texto revela grande força expressiva em razão de sua plasticidade, criada a partir das fortes imagens e das sugestões de cor, som e movimento que envolvem a cena. Com relação a esses recursos, responda:
a) A que se referem as metáforas "a orquestra" e "a serpente" na 3ª e na 6ª estrofes? 
    A "orquestra" é metáfora do conjunto de sons (gritos, lamentos) emitidos pelos negros maltratados. A "serpente" é o chicote.
b) Duas cores são postas em contraste na 1ª e na 2ª estrofes. Quais são elas e o que representam?
    As cores são o vermelho e o preto que compõem o dramático painel em que o sangue dos escravos contrasta com o negro de sua pele.
c) Observe a 1ª, 3ª, 4ª e 5ª estrofes e destaque delas  palavras ou expressões que sugiram movimento.
    Entre outras, "Horrendos a dançar", "a serpente/Faz doudas espirais...", "Fazei-os mais dançar!...".
d) Observe a 1ª e a 3ª estrofes e destaque delas palavras ou expressões que se associem a sonoridade.
   "Tinir de ferros... estalar de açoite...", "E ri-se a orquestra, irônica, estridente...","Ouvem-se gritos... o chicote estala."

2. Acentuando a plasticidade do texto, por duas vezes o poeta aproxima as ideias de som e movimento, empregando as palavras orquestra e dança, como se houvesse uma dança dos escravos ao som da orquestra. De acordo com o texto, explique que tipo de dança os escravos realizam.
    A dança dos escravos é , na verdade, o conjunto de movimentos - acompanhados pelos gritos de dor (a orquestra) - que os negros fazem ao serem chicoteados.

3. Além de antíteses, também hipérboles foram empregadas nesse poema de Castro Alves. A hipérbole é uma figura de linguagem que se caracteriza pelo exagero na expressão. Destaque da 1ª estrofe três hipérboles e indique que efeito de sentido têm no texto.
    Há hipérboles em "sonho dantesco", "Em sangue a se banhar" e "Legiões de homens", que acentuam o tom trágico da cena descrita.

4. O poema "O navio negreiro" tem uma finalidade política e social evidente: a erradicação da escravidão no Brasil. De que modo o poeta procura atingir o público e convencê-lo de suas ideias: com argumentos racionais ou com a exploração das emoções? Justifique.
   A base de argumentação da parte IV é a emoção. A plasticidade da cena e o detalhamento das descrições levam o leitor a compor um rico painel de suplícios da escravidão e, dessa forma, sensibilizar-se diante da causa defendida pelo poeta.

                                                      BONS ESTUDOS!
FONTE:
Cereja, William Roberto
         Português linguagens: volume 2 / William Roberto Cereja, Thereza Cochar Magalhães. __  9. ed. reform. __  São Paulo: Saraiva, 2013. 

quarta-feira, 31 de maio de 2017

Psicologia de um vencido - Augusto dos Anjos (Exercícios com gabarito)

                                   Eu, filho do carbono e do amoníaco,
                                   Monstro de escuridão e rutilância,
                                   Sofro desde a epigênesis da infância,
                                   A influência má dos signos do zodíaco.

                                  Profundissimamente hipocondríaco,
                                  Este ambiente me causa repugnância...
                                  Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
                                  Que se escapa de um cardíaco.

                                  Já o verme - este operário das ruínas -
                                  Que o sangue podre das carnificinas
                                  Come, e à vida em geral declara guerra,

                                  Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
                                  E há de deixar-me apenas os cabelos,
                                  Na frialdade inorgânica da terra!

                                                                          (Augusto dos Anjos)

epigênesis: teoria da formação dos seres por gerações graduais.
frialdade: frieza.
hipocondríaco: aquele que se preocupa excessivamente com a própria saúde; aquele que se sente deprimido ou com tristeza profunda.
rutilância: brilho intenso.

1. A linguagem do poema surpreende e modifica uma tradição poética brasileira, em grande parte construída com base em sentimentalismo, delicadezas, sonhos e fantasias.
   a) Destaque do texto vocábulos empregados poeticamente por Augusto dos Anjos e     tradicionalmente considerados antipoéticos.
      Carbono, amoníaco, epigênesis, hipocondríaco, verme, etc.
      b) De que área do conhecimento humano provêm esses vocábulos?
      Provêm da ciência, particularmente da Química.

2. O poema pode ser dividido em duas partes: a primeira trata do próprio eu lírico; a segunda, da morte.
     a) Como o eu lírico encara a vida e a si mesmo nas duas primeiras estrofes?
      Vê a vida e a si mesmo de forma pessimista, pois entende que o homem é matéria, química, e considera que tudo caminha para a destruição.
     b) Que enfoque é dado à morte nas duas últimas estrofes?
        A morte é considerada o destino final e fatal de toda forma de vida. Cabe ressaltar também a crueza do tratamento dado à morte, representada pela imagem do verme a comer "sangue podre".

3. O título é uma espécie de síntese das ideias do poema. Justifique-o.
     Embora o título contenha a palavra psicologia, o poema detém-se a tratar da matéria das substâncias químicas que formam o eu, evitando maior introspecção. Apesar disso, é possível constatar o negativismo interior do eu lírico, que se considera "vencido" em virtude da fragilidade física do ser humano e da força implacável da morte.

4. O poema é centrado no eu. Apesar disso, pode-se dizer que suas ideias são universalizantes? Justifique.
    Sim, porque a condição humana retratada pelo poema (constituição e fragilidade física do ser humano, fatalidade da morte) não é exclusiva do eu lírico, mas universal.

5. Identifique no texto ao menos uma característica naturalista e outra simbolista.
    A característica naturalista do poema está no cientificismo; a característica simbolista encontra-se na visão decadentista do eu lírico sobre a vida.

Fonte:

Cereja, William Roberto
       Português linguagens: volume 3 / William Roberto Cereja, Thereza Cochar Magalhães. - 7. ed. reform. - São Paulo: Saraiva, 2010.

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Pausa para um momento romântico



 

"Quero"- Carlos Drummond de Andrade

"Quero que todos os dias do ano
todos os dias da vida
de meia em meia hora
de 5 em 5 minutos
me digas: Eu te amo.

Ouvindo-te dizer: Eu te amo,
creio, no momento, que sou amado.
No momento anterior
e no seguinte,
como sabê-lo?

Quero que me repitas até a exaustão
que me amas que me amas que me amas.
Do contrário evapora-se a amação
pois ao não dizer: Eu te amo,
desmentes
apagas
teu amor por mim.

Exijo de ti o perene comunicado.
Não exijo senão isto,
isto sempre, isto cada vez mais.
Quero ser amado por e em tua palavra
nem sei de outra maneira a não ser esta
de reconhecer o dom amoroso,
a perfeita maneira de saber-se amado:
amor na raiz da palavra
e na sua emissão,
amor
saltando da língua nacional,
amor
feito som
vibração espacial.
No momento em que não me dizes:
Eu te amo,
inexoravelmente sei
que deixaste de amar-me,
que nunca me amastes antes.

Se não me disseres urgente repetido
Eu te amoamoamoamoamo,
verdade fulminante que acabas de desentranhar,
eu me precipito no caos,
essa coleção de objetos de não-amor."

   



Casamento

Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como “este foi difícil”
“prateou no ar dando rabanadas”
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.

Adélia Prado PRADO, A. Terra de Santa Cruz, Rio de Janeiro: Record. 2006. p. 25.
 
CONSIDERAÇÕES:
 
No poema de Carlos Drummond de Andrade o eu lírico necessita ouvir sempre e repetidas vezes da pessoa amada as três palavras mais importantes pra ele: "eu te amo"; ou caso contrário, saberá que não é correspondido ou amado.
Já no poema de Adélia Prado o amor é demonstrado através do gesto, do prazer que a mulher tem em ajudar o marido a tratar os peixes a qualquer hora da noite. O diálogo entre os dois, a amizade, a intimidade, o companheirismo e até mesmo o silêncio intensificam o verdadeiro significado da palavra casamento.

domingo, 9 de abril de 2017

Mário de Sá-Carneiro: labirinto e busca (vida/obra e exercícios)




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    Ao lado de Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro (1890-1916), também participante da revista Orpheu, é uma figura de destaque da primeira geração do Modernismo português. O escritor nasceu em Lisboa e ficou órfão de mãe aos dois anos de idade. O pai, envolvido com a carreira militar, viagens e uma vida boêmia, deixou o filho aos cuidados dos avós, que viviam em uma quinta.          Cercado de mimos e distanciado das dificuldades práticas da vida, Sá-Carneiro tornou-se um adolescente inadaptado, de difícil comunicação com as pessoas, sobretudo com as mulheres, provavelmente por causa de seu complexo de obesidade.
   Iniciou sua carreira literária no liceu (equivalente ao ensino médio, atualmente), onde escreveu a peça teatral Amizade, em parceria com o amigo (também órfão e inadaptado como ele) Tomás Cabreira Jr. Sá-Carneiro ficou marcado para sempre pela forma como se deu a morte desse amigo, que se suicidou no pátio da escola, diante dos colegas e professores, numa mistura de desespero exibicionismo.
  Talvez por causa dessa experiência, a ideia de suicídio esteja presente em várias obras de Sá-Carneiro e o tenha perseguido até a morte.
   Os versos do poema "Quase", de Mário de Sá-Carneiro, ilustram esse sentimento de frustração e autodestruição. Coincidentemente, o grupo musical Pato Fu também criou uma canção intitulada "Quase", com a mesma perspectiva diante da vida. Compare os dois textos:

              De tudo houve um começo... e tudo errou...
              - Ai a dor de ser - quase, dor sem fim... -
              Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
              Asa que se enlaçou mas não voou...
                        
                            (Mário de Sá-Carneiro)

            Ela é quase tudo o que eu sonhei
            E eu sou quase aquilo que sempre evitei
            E falhei, sim, falhei...
            Quase um amor
            Quase um caminho
            Que me deixou
            Quase sozinho
            E quase que fiquei contente

                                                  ("Quase", de John Ulhoa)

     De fato, a ideia de suicídio acabou se concretizando. Depois de se dedicar à prosa, à poesia e ao teatro, numa vida agitada em meio aos ambientes artísticos de Paris e Lisboa, o escritor, com apenas 25 anos, suicidou-se num quarto de hotel parisiense, deixando cartas para o amigo Fernando Pessoa, para a amante e para o pai.
   Tanto os personagens da prosa de ficção quanto o eu lírico dos poemas de Sá-Carneiro são geralmente seres voltados para si mesmos, com a personalidade em desagregação. Por isso, buscam um "outro" no seu próprio interior, um duplo que completasse o vazio existencial e o negativismo do eu primeiro.
     Esse desdobramento de personalidade lembra as experiências do amigo Fernando Pessoa com seus heterônimos. Contudo, há uma diferença essencial: enquanto em Pessoa os desdobramentos resultam numa obra rica e diversificada, com várias vozes ou poetas independentes, em Sá-Carneiro a dissociação do eu quase sempre conduz à frustração e à autoflagelação. Provavelmente o suicídio do autor deveu-se à sua incapacidade de conciliar esses dois mundos ou de suportar o mundo real, com seu moralismo e suas convenções. Toda a obra de Sá-Carneiro - de que fazem parte a peça Amizade, as novelas de Princípio e Céu em fogo, a narrativa A confissão de Lúcio e o livro de poemas Dispersão - foi escrita entre 1912 e 1916.

     LEITURA

Os versos seguintes são um fragmento do poema "Dispersão", escrito em 1912, em Paris. O poema integra a obra homônima, publicada em 1914.

Perdi-me dentro de mim 
Porque eu era labirinto, 
E hoje, quando me sinto, 
É com saudades de mim. 
  
Passei pela minha vida 
Um astro doido a sonhar. 
Na ânsia de ultrapassar, 
Nem dei pela minha vida... 
  
Para mim é sempre ontem, 
Não tenho amanhã nem hoje: 
O tempo que aos outros foge 
Cai sobre mim feito ontem. 
  
(O Domingo de Paris 
Lembra-me o desaparecido 
Que sentia comovido 
Os Domingos de Paris: 
  
Porque um domingo é família, 
É bem-estar, é singeleza, 
E os que olham a beleza 
Não têm bem-estar nem família). 
  
O pobre moço das ânsias... 
Tu, sim, tu eras alguém! 
E foi por isso também 
Que te abismaste nas ânsias. 
  
A grande ave dourada 
Bateu asas para os céus, 
Mas fechou-as saciada 
Ao ver que ganhava os céus. 
  
Como se chora um amante, 
Assim me choro a mim mesmo: 
Eu fui amante inconstante 
Que se traiu a si mesmo. 
  
Não sinto o espaço que encerro 
Nem as linhas que projeto: 
Se me olho a um espelho, erro — 
Não me acho no que projeto. 
  
Regresso dentro de mim 
Mas nada me fala, nada! 
Tenho a alma amortalhada, 
Sequinha, dentro de mim. 
  
Não perdi a minha alma, 
Fiquei com ela, perdida.  
Assim eu choro, da vida, 
A morte da minha alma. 

1. No poema, o eu lírico faz uma espécie de avaliação de sua trajetória de vida, tratando de momentos vividos no passado e de momentos vividos no presente.
a) Observe os tempos verbais empregados. Eles confirmam ou negam essa divisão temporal? Por quê?
b) Tomando por base a 3ª estrofe, que tipo de expectativa o eu lírico tem para o presente e para o futuro?
c) Que significado tem o passado para o eu lírico?
d) Como se sente o eu lírico no presente? Comprove sua resposta retirando um ou dois versos do poema.

2. Como é comum nos escritos de Sá-Carneiro, o poema põe em questão a identidade do eu lírico.
a) Interprete os versos:

                               Não sinto o espaço que encerro
                               Nem as linhas que projeto:
                               Se me olho a um espelho, erro -
                               Não me acho no que projeto.

b) Retire do texto exemplos de desdobramento da personalidade ou da busca de um "outro" dentro do eu.

3. Justifique o título do poema a partir das ideias nele contidas.


RESPOSTAS

1.
A) Confirmam: as formas verbais do pretérito perfeito e do imperfeito do indicativo referem-se ao tempo passado; as formas verbais do presente do indicativo referem-se ao tempo presente.
B) Tem uma expectativa pessimista. Para ele, não há presente nem futuro, há apenas passado.
C) O passado, para ele, significa a unidade e a perfeição de um eu do qual sente saudades e que, no presente, se desdobrou em um ser sem identidade. Imagens como "Astro doido a sonhar" e "A grande ave dourada" comprovam a idealização do passado.
D) Sente-se perdido, frustrado, morto interiormente, sem forças para voltar a ser o que era. " Não me acho no que projeto" / "Tenho a alma amortalhada"

2.
A) Esses versos revelam a falta de identidade; o eu lírico não reconhece a si mesmo.
B) "E hoje, quando me sinto, / É com saudades de mim", e toda a 9ª estrofe.

3.
O título está relacionado com a diluição do ser, com a perda da identidade original e com a busca de uma nova identidade.


LEITURA

Quase

Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...


Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num grande mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor! - quase vivido...

Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim - quase a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!


De tudo houve um começo ... e tudo errou...
- Ai a dor de ser - quase, dor sem fim...
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou...

Momentos de alma que,desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas que não fixei...


Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...

Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...

Um pouco mais de sol - e fora brasa,
Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...



LEITURA

DISPERSÃO

Perdi-me dentro de mim 
Porque eu era labirinto, 
E hoje, quando me sinto, 
É com saudades de mim. 
  
Passei pela minha vida 
Um astro doido a sonhar. 
Na ânsia de ultrapassar, 
Nem dei pela minha vida... 
  
Para mim é sempre ontem, 
Não tenho amanhã nem hoje: 
O tempo que aos outros foge 
Cai sobre mim feito ontem. 
  
(O Domingo de Paris 
Lembra-me o desaparecido 
Que sentia comovido 
Os Domingos de Paris: 
  
Porque um domingo é família, 
É bem-estar, é singeleza, 
E os que olham a beleza 
Não têm bem-estar nem família). 
  
O pobre moço das ânsias... 
Tu, sim, tu eras alguém! 
E foi por isso também 
Que te abismaste nas ânsias. 
  
A grande ave dourada 
Bateu asas para os céus, 
Mas fechou-as saciada 
Ao ver que ganhava os céus. 
  
Como se chora um amante, 
Assim me choro a mim mesmo: 
Eu fui amante inconstante 
Que se traiu a si mesmo. 
  
Não sinto o espaço que encerro 
Nem as linhas que projeto: 
Se me olho a um espelho, erro — 
Não me acho no que projeto. 
  
Regresso dentro de mim 
Mas nada me fala, nada! 
Tenho a alma amortalhada, 
Sequinha, dentro de mim. 
  
Não perdi a minha alma, 
Fiquei com ela, perdida.  
Assim eu choro, da vida, 
A morte da minha alma. 
  
Saudosamente recordo 
Uma gentil companheira 
Que na minha vida inteira 
Eu nunca vi... Mas recordo 
  
A sua boca doirada 
E o seu corpo esmaecido, 
Em um hálito perdido 
Que vem na tarde doirada. 
  
(As minhas grandes saudades 
São do que nunca enlacei.  
Ai, como eu tenho saudades 
Dos sonhos que não sonhei!... 
  
E sinto que a minha morte — 
Minha dispersão total — 
Existe lá longe, ao norte, 
Numa grande capital. 
  
Vejo o meu último dia 
Pintado em rolos de fumo, 
E todo azul-de-agonia 
Em sombra e além me sumo. 
  
Ternura feita saudade, 
Eu beijo as minhas mãos brancas... 
Sou amor e piedade 
Em face dessas mãos brancas... 
  
Tristes mãos longas e lindas 
Que eram feitas pra se dar 
Ninguém mais quis apertar 
Tristes mãos longas e lindas 
  
Eu tenho pena de mim, 
Pobre menino ideal... 
Que me faltou afinal? 
Um elo? Um rastro?... Ai de mim!... 
  
Desceu-me na alma o crepúsculo; 
Eu fui alguém que passou. 
Serei, mas já não me sou; 
Não vivo, durmo o crepúsculo. 
  
Álcool dum sono outonal 
Me penetrou vagamente 
A difundir-me dormente 
Em urna bruma outonal. 
  
Perdi a morte e a vida, 
E, louco, não enlouqueço... 
A hora foge vivida, 
Eu sigo-a, mas permaneço,... 
.................................. 
Castelos desmantelados, 
Leões alados sem juba 
......................................

                 BONS ESTUDOS!


sexta-feira, 7 de abril de 2017

HETERÔNIMOS DE FERNANDO PESSOA E ELE-MESMO: EXERCÍCIOS COM GABARITO


 1)    Relacione os fragmentos a seguir de acordo com as características dos heterônimos de Fernando Pessoa:

a)

Creio no mundo como num malmequer
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...

O mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar...

Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar...

b)

Tudo que cessa é morte, e a morte é nossa
Se é para nós que cessa. Aquele arbusto
                Fenece, e vai com ele
                Parte da minha vida.
Em tudo quanto olhei fiquei em parte.
Com tudo quanto vi, se passa, passo,
                Nem distingue a memória
                Do que vi do que fui.

A cada qual, como a statura, é dada
                A justiça: uns faz altos
                O fado, outros felizes.
Nada é prêmio: sucede o que acontece.
                Nada, Lídia, devemos
                Ao fado, senão tê-lo.
    
fado: destino
fenecer: morrer naturalmente

c)


Eia! eia! eia!  
Eia eletricidade, nervos doentes da Matéria!  
Eia telegrafia-sem-fios, simpatia metálica do Inconsciente!  
Eia túneis, eia canais, Panamá, Kiel, Suez!  
Eia todo o passado dentro do presente!  
Eia todo o futuro já dentro de nós! eia!  
Eia! eia! eia!  
Frutos de ferro e útil da árvore-fábrica cosmopolita!  
Eia! eia! eia! eia-hô-ô-ô!  
Nem sei que existo para dentro. Giro, rodeio, engenho-me.  
Engatam-me em todos os comboios.  
Içam-me em todos os cais.  
Giro dentro das hélices de todos os navios.  
Eia! eia-hô! eia!  
Eia! sou o calor mecânico e a eletricidade!                


d)

O essencial é saber ver,
Saber ver sem estar a pensar,
Saber ver quando se vê,
E nem pensar quando se vê
Nem ver quando se pensa.

Mas isso (tristes de nós que trazemos a alma vestida!)
Isso exige um estudo profundo,
Uma aprendizagem de desaprender.


e)

Amemo-nos tranquilamente, pensando que
                                                   [podíamos,
Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
      
      Ouvindo correr o rio e vendo-o.


2.    O poema abaixo é a parte IX de “ O guardador de rebanhos”, de Alberto Caeiro.
Sou um guardador de rebanhos.
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.
Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.
Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto,
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,

Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.


 a) O eu lírico do texto se diz um “guardador de rebanhos”. No entanto, ele não arrebanha bois nem ovelhas. O que arrebanha?

b) Destaque um ou mais versos do texto que ilustrem a atitude de substituir o racionalismo pelo sensacionismo cultivada pelo eu lírico.

c) Como se vê no poema lido, a produção de Alberto Caeiro tende à simplicidade de ideias. Observe agora o poema no plano da expressão, isto é, a estrofação, a métrica dos versos, o vocabulário, o ritmo, a sonoridade em geral, etc. Forma e conteúdo estão em harmonia ou não? Justifique.

3) (UEL) A questão refere-se a uma estrofe, transcrita abaixo, do poema de Fernando Pessoa.

MAR PORTUGUÊS

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

Fonte: PESSOA, F. Mensagem. In: Mensagem e outros poemas afins seguidos de Fernando Pessoa e idéia de Portugal. Mem Martins: Europa-América [19-].

Com base no texto e nos conhecimentos sobre o tema, a frase Tudo vale a pena quando a alma não é pequena remete a:
A)Se o objetivo é a grandeza da pátria, não importam os sacrifícios impostos a todos.
B) Quando o resultado leva à paz, os meios justificam a finalidade almejada.
C) Todas as pessoas têm valores próprios, por isso a guerra é defendida pelos governantes.
D) O sacrifício é compensador mesmo que fiquemos insensíveis diante do bem comum.
E) Tudo vale a pena quando temos o que almejamos e isso não implique enfrentamento de perigos.

 Leia o poema Autopsicografia, de Fernando Pessoa e responda às questões 4 e 5.

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que leem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração
.

calha: cano de zinco ou de cobre em que se escoam águas pluviais.
comboio: trem; grupo de carros com o mesmo destino.

4) O poema apresenta como tema a criação artística, desenvolvendo-o em três planos ou em três níveis, demarcados pelas estrofes. De que trata cada uma das estrofes?

5) Levando em conta que o poeta é um fingidor, levante hipóteses: Por que ,de acordo com a 1ª estrofe , o poeta “ chega a fingir que é dor / A dor que deveras sente”? 

         


                                                                  GABARITO

1) A) Alberto Caeiro: a poesia da sensação.  Considerado por Fernando Pessoa o seu mestre, assim como o de Ricardo Reis e Álvaro de Campos. 
         
  
    B) Ricardo Reis: o sopro clássico.
    
    C) Álvaro de Campos: a energia futurista.

    D) Alberto Caeiro

2) A) Arrebanha sensações.
   
    B) Entre outros, "E os meus pensamentos são todos sensações", "Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la".

   C) Sim, a forma do poema tende à simplicidade (é quase um poema em prosa), harmonizando-se com a simplicidade das ideias.

3) LETRA  A

4) A 1ª estrofe trata do poeta e da criação literária; a 2ª, do leitor e de sua relação com o texto literário; e a 3ª, do jogo entre razão e emoção, existente no fenômeno literário.


5) Resposta pessoal. Sugestões: 1) No jogo literário, experiência e imaginação se fundem, constituindo uma nova realidade, a do texto. 2) A emoção contida no texto nem sempre corresponde à emoção real; esta pode servir de base para a "emoção fingida", que se torna real no poema.
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