domingo, 27 de agosto de 2017

O pior dia da minha vida (relato pessoal)

                                  O pior dia da minha vida

Era noite do dia 5 de novembro de 2000. Dia que minha mãe me abandonou por estar traindo meu pai com meu tio. Eu tinha apenas dois anos de idade e ainda mamava. Apesar de ser pequena, eu entendia um pouco das coisas. Lembro dela dizendo que podia ter me matado e que tentou muitas vezes o aborto.
Eu era muito pequena, não merecia ser abandonada e deixada com pessoas que nem ela mesma conhecia. O que eu fiz pra ela ter tanto ódio de uma criança tão meiga e carinhosa? Eu entendia o que acontecia ao meu redor e fui crescendo e criando um ódio tão grande que não sei se consigo perdoá-la algum dia.
Ainda me lembro quando ela me chamava de minha princesinha. O que aconteceu com sua princesinha? Por que você a abandonou quando ela mais precisou? Você deu as costas. Que pena! Agora a princesinha cresceu e virou a vilã, descobriu outros significados da vida.
Quando minha mãe estava grávida de mim ela usava muito crack. Ao nascer, descobriram que eu estava com problema nos pulmões e por isso ela me desejava a morte. Logo quando me abandonou começou a vender drogas e a se prostituir e hoje ela é uma das maiores traficantes de Teresina e da minha parte ela só tem o meu desprezo.
Minha mãe me abandonou e agora tem o meu desprezo, nada vai mudar isso. Por causa dela hoje sou uma garota triste e amarga, que não se apega mais a ninguém, porque tem medo de ser abandonada outra vez e prefere ficar sozinha sem ninguém. Vive rodeada de pessoas, mas se sente só.
Ninguém se importa comigo, as pessoas só pensam nelas mesmas. Eu preciso de um pouco de atenção e de carinho. Às vezes sou chata, mas tenho um bom coração. Só quero ser feliz e amada. Não sou uma pessoa má e nem quero enfrentar a vida sozinha. Cadê aqueles amigos que dizem que são seus amigos, mas na hora que você mais precisa eles somem? A verdade é que as pessoas só querem a nossa amizade quando estamos numa boa.


                  Menina má (pseudônimo), 1ª série; turma A da Unidade Escolar Demerval Lobão, Angical do Piauí, AGOSTO de 2017.


sábado, 22 de julho de 2017

Mãos dadas - Carlos Drummond de Andrade ( Exercícios resolvidos)

Mãos Dadas
                    Carlos Drummond de Andrade

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos,
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
Não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
Não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
Não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, a vida presente. 


1. Do ponto de vista formal, que elementos do texto de Drummond exemplificam a liberação do academicismo, deflagrada em 1922 e amadurecida em 30?

Os versos livres, as estrofes heterogêneas e o tom prosaico da linguagem constituem exemplos de liberação do academicismo, presentes no poema. 

2. Que versos da primeira estrofe indicam a recusa do eu lírico em compactuar com o "oficialismo literário", ou seja, a alienação em relação ao momento presente e à realidade histórico- social do país?

Trata-se dos dois versos de abertura do poema. 

3. Transcreva uma expressão do trecho selecionado na resposta anterior que exemplifique a visão negativa do poeta sobre o "passadismo literário", justificando sua escolha. 

A expressão é "mundo caduco", como se percebe pelo caráter pejorativo do adjetivo com o qual o poeta caracteriza o passadismo. 


4. Na segunda estrofe, o eu lírico expressa uma nova recusa. A que movimento literário ela se refere? Explique e exemplifique.

A recusa do eu lírico refere-se ao escapismo do estilo romântico, como se percebe por expressões presentes nos quatro versos iniciais da segunda estrofe: " cantar uma mulher", " dizer suspiros ao anoitecer", " distribuir entorpecentes e cartas de suicida" etc. 

5. Considerando a dimensão social presente no poema, e consequentemente seu caráter antiburguês, reflita: quem seriam os companheiros do poeta? Por que razão ''estão taciturnos'' e, por outro lado, por que ''nutrem grandes esperanças''?

Os "companheiros" do poeta são os oprimidos do sistema capitalista, como os operários. Se a exploração em que vivem os deixa taciturnos, por outro lado o poema acena com a possibilidade de uma revolução, como se percebe no último verso da primeira estrofe. 

Fonte: 


AMARAL, Emília. FERREIRA, Mauro. LEITE, Ricardo. ANTÔNIO, Severino. Novas palavras. 2ª ed. São Paulo: FTD, 2005.  

Poema Versos Íntimos - Augusto dos Anjos (Atividade)

Versos Íntimos

Vês! Ninguém assistiu ao formidável 
Enterro de tua última quimera. 
Somente a Ingratidão - esta pantera- 
Foi tua companheira inseparável! 
Acostuma-te à lama que te espera! 
O homem, que, nesta terra miserável, 
Mora, entre feras, sente inevitável 
Necessidade de também ser fera. 
Toma um fósforo. Acende teu cigarro! 
O beijo, amigo, é a véspera do escarro, 
A mão que afaga é a mesma que apedreja. 
Se a alguém causa inda pena a tua chaga, 
Apedreja essa mão vil que te afaga, 
Escarra nessa boca que te beija! 
                                                                            Augusto dos Anjos 


1. Do ponto de vista formal, o texto se caracteriza como um soneto clássico. Justifique esta afirmação, considerando o esquema métrico e o esquema rímico nele presentes.
Os versos são decassílabos e as rimas são regulares ( ABBA; BAAB; CCD; DDC). 

2. O conselho ou ordem da terceira estrofe introduz no poema, de forma inesperada, um tom prosaico, de conversa cotidiana. O verso surpreende o leitor de forma irônica e provocativa, fazendo lembrar o Realismo psicológico de Machado de Assis. Releia as duas estrofes finais e, a partir delas, explique o sentido da utilização desses recursos no referido verso. 
Por meio da surpresa, da ironia e da provocação, o sujeito lírico procura quebrar a expectativa do leitor, como se o aconselhasse a se preparar para ler a afirmação cruel sobre o ser humano que vem a seguir. 

3. Observe que, no poema, homem, vida social, amizade, solidariedade, afeto (beijo, mão que afaga) transformam-se em ingratidão, terra miserável, fera, desafeto ( escarro, mão que apedreja). Nessa perspectiva, tente interpretar sua estrofe final.

a-Que ações o sujeito lírico recomenda ao leitor?
 O sujeito lírico recomenda apedrejar a mão vil de quem se recebeu um afago, escarrar na boca de quem se recebeu um beijo.


b-Numa leitura mais profunda, poderíamos pensar que o sujeito lírico estaria nos advertindo, precavendo-nos contra aquilo que parece nos ordenar, aconselhar a fazer. Que recurso estilístico presente em todo o texto permite esse interpretação? Por quê?

O recurso estilístico é a ironia, que permite essa interpretação justamente porque consiste em afirmar o contrário do que se pensa. 

4. O que há de irônico no título Versos íntimos, comparando-o com o conteúdo do poema?
O referido título é irônico, por sugerir um texto subjetivo, romântico, sentimental, o que a leitura efetiva do poema desmente, ao mostrar que se trata de um texto agressivo, desolador, que se aproxima do grotesco. 

Fonte: 
AMARAL, Emília. FERREIRA, Mauro. LEITE, Ricardo. ANTÔNIO, Severino. Novas palavras. 2ª ed. São Paulo: FTD, 2005.  

domingo, 25 de junho de 2017

As pombas, soneto de Raimundo Correia ( Interpretação )



     As pombas


Resultado de imagem para imagens pombasVai-se a primeira pomba despertada...
Vai-se outra mais... mais outra... enfim dezenas
De pombas vão-se dos pombais, apenas
Raia sanguínea e fresca a madrugada...

E à tarde, quando a rígida nortada
Sopra, aos pombais de novo elas, serenas,
Ruflando as asas, sacudindo as penas,
Voltam todas em bando e em revoada...

Também dos corações onde abotoam,
Os sonhos, um por um, céleres voam,
Como voam as pombas dos pombais;

No azul da adolescência as asas soltam,
Fogem... Mas aos pombais as pombas voltam,
E eles aos corações não voltam mais...


1. O soneto está organizado em duas partes. Nas duas quadras, o eu lírico descreve o revoar das pombas; nos tercetos é estabelecida uma comparação.
a) A que é comparado o revoar das pombas?
    O autor compara o movimento das pombas aos sonhos da adolescência, que igualmente voam.
b) Qual é a diferença essencial, segundo o texto, entre os elementos comparados?
    As pombas retornam aos pombais ao fim da tarde, mas os sonhos adolescentes não voltam mais.

2. De acordo com os termos dessa comparação, identifique a que correspondem, no plano da vida:
a) a madrugada e a tarde;  A madrugada corresponde à juventude; a tarde, à velhice.
b) a nortada, que as pombas encontram, à tarde, fora dos pombais. Os percalços da vida, que acabam por fazer os sonhos se perderem.

3. Releia a última estrofe do soneto. Que visão sobre a vida e sobre a condição humana o eu lírico expressa nessa estrofe e no poema como um todo?
   O eu lírico, revelando preocupação metafísica, trata com pessimismo a condição do homem perante a vida e o tempo.

4. Destaque do soneto três características que comprovem a filiação do texto ao Parnasianismo.
    O descritivismo, a sobriedade e a contenção das emoções, o formalismo.


O AUTOR:
Raimundo Correia (1860 - 1911) é um dos poetas que, juntamente com Olavo Bilac e Alberto de Oliveira, formam a chamada " tríade parnasiana ". Maranhense, estudou Direito em São Paulo e foi magistrado em vários Estados brasileiros.
Sua poesia, no movimento parnasiano, representa um momento de descontração e investigação. Nela se verificam pelo menos três fases:
  • a fase romântica: com influência de Casimiro de Abreu e Fagundes Varela, é representada por Primeiros Sonhos (1879);
  • a fase parnasiana propriamente dita: representada pelas obras Sinfonias (1883) e Versos e versões (1887), é marcada pelo pessimismo de Schopenhauer - pensador alemão que defendia a ideia de que todas as dores e males do mundo provêm da vontade de viver - e por reflexões de ordem moral e social;
  • a fase pré - simbolista: nela, o pessimismo diante da condição humana busca refúgio na metafísica e na religião, enquanto a linguagem apresenta uma pesquisa em musicalidade e sinestesia.
  
                                                     BONS ESTUDOS!


FONTE: 
 Português: linguagens, 2 / William Roberto Cereja, Thereza Cochar Magalhães. - 9. ed. - São Paulo: Saraiva, 2013.

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Via láctea (soneto XIII) e Nel mezzo del camin... (Exercícios resolvidos)



Você vai ler a seguir, dois dos mais conhecidos sonetos de Olavo Bilac.



Via Láctea


Soneto XIII
                     
 “Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto…
E conversamos toda a noite, enquanto
A via-láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.
Direis agora: “Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?”
E eu vos direi: “Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas”.

Nel mezzo del camin...
“Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada
E triste, e triste e fatigado eu vinha.
Tinhas a alma de sonhos povoada,
E a alma de sonhos povoada eu tinha…
E paramos de súbito na estrada
Da vida: longos anos, presa à minha
A tua mão, a vista deslumbrada
Tive da luz que teu olhar continha.
Hoje, segues de novo… Na partida
Nem o pranto os teus olhos umedece,
Nem te comove a dor da despedida.
E eu, solitário, volto a face, e tremo,
Vendo o teu vulto que desaparece
Na extrema curva do caminho extremo.”

1. No poema "Via láctea" há um diálogo sugerido pelo emprego de pronomes e verbos e pelo emprego das aspas. Identifique os interlocutores desse diálogo.
 O eu lírico, que é identificado pelos pronomes e verbos em 1ª pessoa, e seus interlocutores, vós, identificados pelo tratamento em 2ª pessoa do plural.
2. A propósito desse soneto:
a) Identifique no texto um exemplo de predomínio da emoção sobre a razão.
Principalmente no trecho "saudoso e em pranto", / "Inda as procuro pelo céu deserto".
b) O que é necessário, segundo o eu lírico, para estabelecer comunicação com as estrelas?
                                                    É necessário amar.
3. O poema "Nel mezzo del camin..." apresenta imagens e sugestões cenográficas, como se pudéssemos visualizar as cenas num palco. O texto pode ser dividido em duas partes ou em dois momentos de uma caminhada.
a) Qual é a primeira parte?
A primeira parte é constituída pela primeira estrofe.
b) E a segunda parte?
 A segunda parte é constituída pelas duas últimas estrofes.
A segunda estrofe refere-se  ao momento da interrupção da caminhada, ou seja, é o "mezzo del camin" ( no meio do caminho ).
c) Levante hipóteses: O que teria provocado a separação?
Talvez o desgaste do tempo ou o fim do amor.
d) Por que, na última estrofe, o eu lírico diz "tremo"?
Talvez porque, para ele, a separação tenha outro significado, ou seja, talvez ele ainda ame a mulher que parte.
4. O poema "Nel mezzo del camin..." apresenta várias repetições, algumas delas com inversão. Que efeito de sentido têm as repetições no poema?
Elas acentuam as ideias, reforçam as imagens e conferem ritmo ao texto.
5. Ambos os sonetos são muito apreciados pelo público e revelam as qualidades técnicas de Bilac como sonetista; contudo, não são os melhores exemplos da estética parnasiana. De que outro movimento literário notamos influência nesses textos? Justifique sua resposta.
Notam-se influências do Romantismo, principalmente no primeiro texto, em que o sentimento prevalece sobre a razão. O segundo texto, embora mais contido emocionalmente do que o primeiro e em transição para o Parnasianismo, ainda revela um enfoque romântico do amor ao tratá-lo pela perspectiva da frustração. 
       O AUTOR:
Olavo Bilac (1865 - 1918) nasceu no Rio de Janeiro, estudou Medicina e Direito, mas não concluiu nenhum desses cursos. Exerceu as atividades de jornalista e inspetor escolar, tendo devotado boa parte de seu trabalho e de seus escritos à educação. Foi defensor da instrução primária, da educação física e do serviço militar obrigatório. Patriota, escreveu a letra do Hino à Bandeira e dedicou-se a temas de caráter histórico - nacionalista.
Sua primeira obra publicada foi Poesias (1888). Nela, o poeta já demonstrava estar plenamente identificado com as propostas do Parnasianismo, como comprova seu  poema " Profissão de Fé ". Mas a concepção poética excessivamente formalista defendida por esse poema nem o próprio Bilac seguiu à risca.  Vez ou outra depreende-se de seus textos certa valorização dos sentimentos que lembra o Romantismo. Apesar de menos conhecidos ao público, há na produção de Bilac poemas amorosos de forte sensualidade, que o tornam  sempre lembrado entre os autores brasileiros que cultivaram a poesia erótica.                   
                                                                 BONS ESTUDOS!
FONTE:
Cereja, William Roberto
         Português linguagens: volume 2 / William Roberto Cereja, Thereza Cochar Magalhães. __  9. ed. reform. __  São Paulo: Saraiva, 2013.  

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Iracema, José de Alencar ( exercícios resolvidos)


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                                                       Iracema
                                                                                                                               José de Alencar



                        Capítulo II






Além, muito além daquela serra, que ainda azula no horizonte, nasceu Iracema.

Iracema, a virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna e mais longos que seu talhe de palmeira.

O favo da jati não era doce como seu sorriso; nem a baunilha recendia no bosque como seu hálito perfumado.

Mais rápida que a ema selvagem, a morena virgem corria o sertão e as matas do Ipu onde campeava sua guerreira tribo da grande nação tabajara, o pé grácil e nu, mal roçando alisava apenas a verde pelúcia que vestia a terra com as primeiras águas.

Um dia, ao pino do sol, ela repousava em um claro da floresta. Banhava-lhe o corpo a sombra da oiticica, mais fresca do que o orvalho da noite. Os ramos da acácia silvestre esparziam flores sobre os úmidos cabelos. Escondidos na folhagem os pássaros ameigavam o canto.

Iracema saiu do banho; o aljôfar d'água ainda a roreja, como à doce mangaba que corou em manhã de chuva Enquanto repousa, empluma das penas do gará as flechas de seu arco, e concerta com o sabiá da mata, pousado no galho próximo, o canto agreste.

A graciosa ará, sua companheira e amiga, brinca junto dela As vezes sobe aos ramos da árvore e de lá chama a virgem pelo nome; outras remexe o uru te palha matizada, onde traz a selvagem seus perfumes, os alvos fios do crautá , as agulhas da juçara com que tece a renda, e as tintas de que matiza o algodão.

Rumor suspeito quebra a doce harmonia da sesta. Ergue a virgem os olhos, que o sol não deslumbra; sua vista perturba-se.

Diante dela e todo a contemplá-la, está um guerreiro estranho, se é guerreiro e não algum mau espírito da floresta. Tem nas faces o branco das areias que bordam o mar; nos olhos o azul triste das águas profundas. Ignotas armas e tecidos ignotos cobrem-lhe o corpo.

Foi rápido, como o olhar, o gesto de Iracema. A flecha embebida no arco partiu. Gotas de sangue borbulham na face do desconhecido.

De primeiro ímpeto, a mão lesta caiu sobre a cruz da espada, mas logo sorriu. O moço guerreiro aprendeu na religião de sua mãe, onde a mulher é símbolo de ternura e amor. Sofreu mais d'alma que da ferida.

O sentimento que ele pôs nos olhos e no rosto, não o sei eu. Porém a virgem lançou de si o arco e a uiraçaba, e correu para o guerreiro, sentida da mágoa que causara.

A mão que rápida ferira, estancou mais rápida e compassiva o sangue que gotejava. Depois Iracema quebrou a flecha homicida: deu a haste ao desconhecido, guardando consigo a ponta farpada.

O guerreiro falou:

—Quebras comigo a flecha da paz?

—Quem te ensinou, guerreiro branco, a linguagem de meus irmãos? Donde vieste a estas matas, que nunca viram outro guerreiro como tu ?

—Venho de bem longe, filha das florestas. Venho das terras que teus irmãos já possuíram, e hoje têm os meus.

—Bem-vindo seja o estrangeiro aos campos dos tabajaras, senhores das aldeias, e à cabana de Araquém, pai de Iracema.

     www.educadores.diaadia.pr.gov.br/arquivos/File/...e.../IRACEMA/02.HTML


1) A caracterização da personagem é feita por meio de comparações. Observe os quatro primeiros parágrafos. 
a) A que elementos Iracema é comparada?
    É comparada ao mel, à baunilha, aos pássaros e às plantas; enfim, é comparada a elementos naturais.
b) Nessa comparação, quem se destaca mais: a índia ou esses elementos?
     A índia, pois nela tudo é superior: "cabelos mais negros que a asa da graúna", "o favo da jati não era doce como seu sorriso".
c) Que característica romântica se observa nesse procedimento?
   A idealização da heroína e da mulher.

2) José de Alencar foi um dos principais escritores brasileiros empenhados no projeto romântico de construir uma identidade nacional. Por meio da literatura, o escritor pretendia libertar a cultura brasileira do domínio da cultura portuguesa. De que modo o escritor põe em prática esse projeto, no texto, considerando-se os aspectos da língua e do espaço?
   Empregando palavras indígenas e destacando elementos da fauna e da flora nacionais; por meio desse procedimento, o autor procurou criar uma literatura identificada com  nossa gente, nossa cultura e nossa natureza.

3) Tomando por base a leitura do capítulo II, acima, aponte a opção que apresenta a correlação ERRADA.
A) Graúna - pássaro de cor negra luzidia.
B) Ará - palmeira de grandes espinhos.
C) Oiticica - árvore frondosa, apreciada pela deliciosa frescura que derrama sua sombra.
D) Jati - pequena abelha que fabrica delicioso mel.
E) Uru - cestinho que servia de cofre às selvagens para guardar seus objetos de estimação.

       Ará: periquito

4) O surgimento de Martim, o guerreiro branco, representa o primeiro contato entre Iracema e a civilização europeia. Esse encontro provocará a sucessão dos acontecimentos narrados nos capítulos posteriores do livro: o amor de Iracema por Martim; sua exclusão da tribo tabajara; sua partida para o litoral cearense, acompanhando o amante; o nascimento de um filho (Moacir, símbolo do primeiro cearense); a morte de Iracema.
a) Considerando as consequências futuras desse encontro, explique o significado simbólico e premonitório que podemos atribuir à frase "Rumor suspeito quebra a doce harmonia da sesta".
    Não é apenas a harmonia da sesta que se quebra. O contato com a civilização quebrará a harmonia da vida selvagem, a harmonia existente entre Iracema e a natureza.
b) Ferido por Iracema, qual foi a atitude de Martim?
    Num primeiro gesto, Martim levou a mão à espada para defender-se. Mas, percebendo que quem o atacava era uma mulher, ele apenas sorriu.
c) Em que sentido a atitude de Martim está ligada à idealização romântica da mulher?
   Para Martim, era inconcebível que uma mulher representasse um perigo do qual ele necessitasse se defender. Como personagem romântico, ele vê a mulher como um ser essencialmente bom e puro, feito apenas de ternura e amor.

                                             BONS ESTUDOS!




sexta-feira, 2 de junho de 2017

Navio Negreiro (parte IV) Exercícios com gabarito


O texto que segue, a parte IV de "O navio negreiro", é a descrição do que se via no interior de um navio negreiro. Perceba a capacidade de Castro Alves em nos fazer ver a cena, como se estivéssemos num teatro.

Era um sonho dantesco... O tombadilho,
Que das luzernas avermelha o brilho,
Em sangue a se banhar.
Tinir de ferros... estalar do açoite...
Legiões de homens negros como a noite,
Horrendos a dançar...

Negras mulheres, suspendendo às tetas
Magras crianças, cujas bocas pretas
Rega o sangue das mães:
Outras, moças... mas nuas, espantadas,
No turbilhão de espectros arrastadas,
Em ânsia e mágoa vãs.

E ri-se a orquestra, irônica, estridente...
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais...
Se o velho arqueja... se no chão resvala,
Ouvem-se gritos... o chicote estala.
E voam mais e mais...

Presa nos elos de uma só cadeia,
A multidão faminta cambaleia,
E chora e dança ali!
Um de raiva delira, outro enlouquece...
Outro, que de martírios embrutece,
Cantando, geme e ri!

No entanto o capitão manda a manobra.
E após, fitando o céu que se desdobra
Tão puro sobre o mar,
Diz do fumo entre os densos nevoeiros:
"Vibrai rijo o chicote, marinheiros!
Fazei-os mais dançar!..."

E ri-se a orquestra irônica, estridente...
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais!
Qual num sonho dantesco as sombras voam!...
Gritos, ais, maldições, preces ressoam!
E ri-se Satanás!...

açoite: chicote.
arquejar: ofegar.
dantesco: relativo às cenas de horríveis narradas por Dante Alighieri em sua obra Divina comédia, na parte em que descreve o inferno.
luzernas: clarões.
tombadilho: alojamento do navio.
turbilhão: redemoinho.
vãs: inúteis, sem valor.

1. O texto revela grande força expressiva em razão de sua plasticidade, criada a partir das fortes imagens e das sugestões de cor, som e movimento que envolvem a cena. Com relação a esses recursos, responda:
a) A que se referem as metáforas "a orquestra" e "a serpente" na 3ª e na 6ª estrofes? 
    A "orquestra" é metáfora do conjunto de sons (gritos, lamentos) emitidos pelos negros maltratados. A "serpente" é o chicote.
b) Duas cores são postas em contraste na 1ª e na 2ª estrofes. Quais são elas e o que representam?
    As cores são o vermelho e o preto que compõem o dramático painel em que o sangue dos escravos contrasta com o negro de sua pele.
c) Observe a 1ª, 3ª, 4ª e 5ª estrofes e destaque delas  palavras ou expressões que sugiram movimento.
    Entre outras, "Horrendos a dançar", "a serpente/Faz doudas espirais...", "Fazei-os mais dançar!...".
d) Observe a 1ª e a 3ª estrofes e destaque delas palavras ou expressões que se associem a sonoridade.
   "Tinir de ferros... estalar de açoite...", "E ri-se a orquestra, irônica, estridente...","Ouvem-se gritos... o chicote estala."

2. Acentuando a plasticidade do texto, por duas vezes o poeta aproxima as ideias de som e movimento, empregando as palavras orquestra e dança, como se houvesse uma dança dos escravos ao som da orquestra. De acordo com o texto, explique que tipo de dança os escravos realizam.
    A dança dos escravos é , na verdade, o conjunto de movimentos - acompanhados pelos gritos de dor (a orquestra) - que os negros fazem ao serem chicoteados.

3. Além de antíteses, também hipérboles foram empregadas nesse poema de Castro Alves. A hipérbole é uma figura de linguagem que se caracteriza pelo exagero na expressão. Destaque da 1ª estrofe três hipérboles e indique que efeito de sentido têm no texto.
    Há hipérboles em "sonho dantesco", "Em sangue a se banhar" e "Legiões de homens", que acentuam o tom trágico da cena descrita.

4. O poema "O navio negreiro" tem uma finalidade política e social evidente: a erradicação da escravidão no Brasil. De que modo o poeta procura atingir o público e convencê-lo de suas ideias: com argumentos racionais ou com a exploração das emoções? Justifique.
   A base de argumentação da parte IV é a emoção. A plasticidade da cena e o detalhamento das descrições levam o leitor a compor um rico painel de suplícios da escravidão e, dessa forma, sensibilizar-se diante da causa defendida pelo poeta.

                                                      BONS ESTUDOS!
FONTE:
Cereja, William Roberto
         Português linguagens: volume 2 / William Roberto Cereja, Thereza Cochar Magalhães. __  9. ed. reform. __  São Paulo: Saraiva, 2013. 

quarta-feira, 31 de maio de 2017

Psicologia de um vencido - Augusto dos Anjos (Exercícios com gabarito)

                                   Eu, filho do carbono e do amoníaco,
                                   Monstro de escuridão e rutilância,
                                   Sofro desde a epigênesis da infância,
                                   A influência má dos signos do zodíaco.

                                  Profundissimamente hipocondríaco,
                                  Este ambiente me causa repugnância...
                                  Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
                                  Que se escapa de um cardíaco.

                                  Já o verme - este operário das ruínas -
                                  Que o sangue podre das carnificinas
                                  Come, e à vida em geral declara guerra,

                                  Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
                                  E há de deixar-me apenas os cabelos,
                                  Na frialdade inorgânica da terra!

                                                                          (Augusto dos Anjos)

epigênesis: teoria da formação dos seres por gerações graduais.
frialdade: frieza.
hipocondríaco: aquele que se preocupa excessivamente com a própria saúde; aquele que se sente deprimido ou com tristeza profunda.
rutilância: brilho intenso.

1. A linguagem do poema surpreende e modifica uma tradição poética brasileira, em grande parte construída com base em sentimentalismo, delicadezas, sonhos e fantasias.
   a) Destaque do texto vocábulos empregados poeticamente por Augusto dos Anjos e     tradicionalmente considerados antipoéticos.
      Carbono, amoníaco, epigênesis, hipocondríaco, verme, etc.
      b) De que área do conhecimento humano provêm esses vocábulos?
      Provêm da ciência, particularmente da Química.

2. O poema pode ser dividido em duas partes: a primeira trata do próprio eu lírico; a segunda, da morte.
     a) Como o eu lírico encara a vida e a si mesmo nas duas primeiras estrofes?
      Vê a vida e a si mesmo de forma pessimista, pois entende que o homem é matéria, química, e considera que tudo caminha para a destruição.
     b) Que enfoque é dado à morte nas duas últimas estrofes?
        A morte é considerada o destino final e fatal de toda forma de vida. Cabe ressaltar também a crueza do tratamento dado à morte, representada pela imagem do verme a comer "sangue podre".

3. O título é uma espécie de síntese das ideias do poema. Justifique-o.
     Embora o título contenha a palavra psicologia, o poema detém-se a tratar da matéria das substâncias químicas que formam o eu, evitando maior introspecção. Apesar disso, é possível constatar o negativismo interior do eu lírico, que se considera "vencido" em virtude da fragilidade física do ser humano e da força implacável da morte.

4. O poema é centrado no eu. Apesar disso, pode-se dizer que suas ideias são universalizantes? Justifique.
    Sim, porque a condição humana retratada pelo poema (constituição e fragilidade física do ser humano, fatalidade da morte) não é exclusiva do eu lírico, mas universal.

5. Identifique no texto ao menos uma característica naturalista e outra simbolista.
    A característica naturalista do poema está no cientificismo; a característica simbolista encontra-se na visão decadentista do eu lírico sobre a vida.

Fonte:

Cereja, William Roberto
       Português linguagens: volume 3 / William Roberto Cereja, Thereza Cochar Magalhães. - 7. ed. reform. - São Paulo: Saraiva, 2010.

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Pausa para um momento romântico



 

"Quero"- Carlos Drummond de Andrade

"Quero que todos os dias do ano
todos os dias da vida
de meia em meia hora
de 5 em 5 minutos
me digas: Eu te amo.

Ouvindo-te dizer: Eu te amo,
creio, no momento, que sou amado.
No momento anterior
e no seguinte,
como sabê-lo?

Quero que me repitas até a exaustão
que me amas que me amas que me amas.
Do contrário evapora-se a amação
pois ao não dizer: Eu te amo,
desmentes
apagas
teu amor por mim.

Exijo de ti o perene comunicado.
Não exijo senão isto,
isto sempre, isto cada vez mais.
Quero ser amado por e em tua palavra
nem sei de outra maneira a não ser esta
de reconhecer o dom amoroso,
a perfeita maneira de saber-se amado:
amor na raiz da palavra
e na sua emissão,
amor
saltando da língua nacional,
amor
feito som
vibração espacial.
No momento em que não me dizes:
Eu te amo,
inexoravelmente sei
que deixaste de amar-me,
que nunca me amastes antes.

Se não me disseres urgente repetido
Eu te amoamoamoamoamo,
verdade fulminante que acabas de desentranhar,
eu me precipito no caos,
essa coleção de objetos de não-amor."

   



Casamento

Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como “este foi difícil”
“prateou no ar dando rabanadas”
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.

Adélia Prado PRADO, A. Terra de Santa Cruz, Rio de Janeiro: Record. 2006. p. 25.
 
CONSIDERAÇÕES:
 
No poema de Carlos Drummond de Andrade o eu lírico necessita ouvir sempre e repetidas vezes da pessoa amada as três palavras mais importantes pra ele: "eu te amo"; ou caso contrário, saberá que não é correspondido ou amado.
Já no poema de Adélia Prado o amor é demonstrado através do gesto, do prazer que a mulher tem em ajudar o marido a tratar os peixes a qualquer hora da noite. O diálogo entre os dois, a amizade, a intimidade, o companheirismo e até mesmo o silêncio intensificam o verdadeiro significado da palavra casamento.

domingo, 9 de abril de 2017

Mário de Sá-Carneiro: labirinto e busca (vida/obra e exercícios)




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    Ao lado de Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro (1890-1916), também participante da revista Orpheu, é uma figura de destaque da primeira geração do Modernismo português. O escritor nasceu em Lisboa e ficou órfão de mãe aos dois anos de idade. O pai, envolvido com a carreira militar, viagens e uma vida boêmia, deixou o filho aos cuidados dos avós, que viviam em uma quinta.          Cercado de mimos e distanciado das dificuldades práticas da vida, Sá-Carneiro tornou-se um adolescente inadaptado, de difícil comunicação com as pessoas, sobretudo com as mulheres, provavelmente por causa de seu complexo de obesidade.
   Iniciou sua carreira literária no liceu (equivalente ao ensino médio, atualmente), onde escreveu a peça teatral Amizade, em parceria com o amigo (também órfão e inadaptado como ele) Tomás Cabreira Jr. Sá-Carneiro ficou marcado para sempre pela forma como se deu a morte desse amigo, que se suicidou no pátio da escola, diante dos colegas e professores, numa mistura de desespero exibicionismo.
  Talvez por causa dessa experiência, a ideia de suicídio esteja presente em várias obras de Sá-Carneiro e o tenha perseguido até a morte.
   Os versos do poema "Quase", de Mário de Sá-Carneiro, ilustram esse sentimento de frustração e autodestruição. Coincidentemente, o grupo musical Pato Fu também criou uma canção intitulada "Quase", com a mesma perspectiva diante da vida. Compare os dois textos:

              De tudo houve um começo... e tudo errou...
              - Ai a dor de ser - quase, dor sem fim... -
              Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
              Asa que se enlaçou mas não voou...
                        
                            (Mário de Sá-Carneiro)

            Ela é quase tudo o que eu sonhei
            E eu sou quase aquilo que sempre evitei
            E falhei, sim, falhei...
            Quase um amor
            Quase um caminho
            Que me deixou
            Quase sozinho
            E quase que fiquei contente

                                                  ("Quase", de John Ulhoa)

     De fato, a ideia de suicídio acabou se concretizando. Depois de se dedicar à prosa, à poesia e ao teatro, numa vida agitada em meio aos ambientes artísticos de Paris e Lisboa, o escritor, com apenas 25 anos, suicidou-se num quarto de hotel parisiense, deixando cartas para o amigo Fernando Pessoa, para a amante e para o pai.
   Tanto os personagens da prosa de ficção quanto o eu lírico dos poemas de Sá-Carneiro são geralmente seres voltados para si mesmos, com a personalidade em desagregação. Por isso, buscam um "outro" no seu próprio interior, um duplo que completasse o vazio existencial e o negativismo do eu primeiro.
     Esse desdobramento de personalidade lembra as experiências do amigo Fernando Pessoa com seus heterônimos. Contudo, há uma diferença essencial: enquanto em Pessoa os desdobramentos resultam numa obra rica e diversificada, com várias vozes ou poetas independentes, em Sá-Carneiro a dissociação do eu quase sempre conduz à frustração e à autoflagelação. Provavelmente o suicídio do autor deveu-se à sua incapacidade de conciliar esses dois mundos ou de suportar o mundo real, com seu moralismo e suas convenções. Toda a obra de Sá-Carneiro - de que fazem parte a peça Amizade, as novelas de Princípio e Céu em fogo, a narrativa A confissão de Lúcio e o livro de poemas Dispersão - foi escrita entre 1912 e 1916.

     LEITURA

Os versos seguintes são um fragmento do poema "Dispersão", escrito em 1912, em Paris. O poema integra a obra homônima, publicada em 1914.

Perdi-me dentro de mim 
Porque eu era labirinto, 
E hoje, quando me sinto, 
É com saudades de mim. 
  
Passei pela minha vida 
Um astro doido a sonhar. 
Na ânsia de ultrapassar, 
Nem dei pela minha vida... 
  
Para mim é sempre ontem, 
Não tenho amanhã nem hoje: 
O tempo que aos outros foge 
Cai sobre mim feito ontem. 
  
(O Domingo de Paris 
Lembra-me o desaparecido 
Que sentia comovido 
Os Domingos de Paris: 
  
Porque um domingo é família, 
É bem-estar, é singeleza, 
E os que olham a beleza 
Não têm bem-estar nem família). 
  
O pobre moço das ânsias... 
Tu, sim, tu eras alguém! 
E foi por isso também 
Que te abismaste nas ânsias. 
  
A grande ave dourada 
Bateu asas para os céus, 
Mas fechou-as saciada 
Ao ver que ganhava os céus. 
  
Como se chora um amante, 
Assim me choro a mim mesmo: 
Eu fui amante inconstante 
Que se traiu a si mesmo. 
  
Não sinto o espaço que encerro 
Nem as linhas que projeto: 
Se me olho a um espelho, erro — 
Não me acho no que projeto. 
  
Regresso dentro de mim 
Mas nada me fala, nada! 
Tenho a alma amortalhada, 
Sequinha, dentro de mim. 
  
Não perdi a minha alma, 
Fiquei com ela, perdida.  
Assim eu choro, da vida, 
A morte da minha alma. 

1. No poema, o eu lírico faz uma espécie de avaliação de sua trajetória de vida, tratando de momentos vividos no passado e de momentos vividos no presente.
a) Observe os tempos verbais empregados. Eles confirmam ou negam essa divisão temporal? Por quê?
b) Tomando por base a 3ª estrofe, que tipo de expectativa o eu lírico tem para o presente e para o futuro?
c) Que significado tem o passado para o eu lírico?
d) Como se sente o eu lírico no presente? Comprove sua resposta retirando um ou dois versos do poema.

2. Como é comum nos escritos de Sá-Carneiro, o poema põe em questão a identidade do eu lírico.
a) Interprete os versos:

                               Não sinto o espaço que encerro
                               Nem as linhas que projeto:
                               Se me olho a um espelho, erro -
                               Não me acho no que projeto.

b) Retire do texto exemplos de desdobramento da personalidade ou da busca de um "outro" dentro do eu.

3. Justifique o título do poema a partir das ideias nele contidas.


RESPOSTAS

1.
A) Confirmam: as formas verbais do pretérito perfeito e do imperfeito do indicativo referem-se ao tempo passado; as formas verbais do presente do indicativo referem-se ao tempo presente.
B) Tem uma expectativa pessimista. Para ele, não há presente nem futuro, há apenas passado.
C) O passado, para ele, significa a unidade e a perfeição de um eu do qual sente saudades e que, no presente, se desdobrou em um ser sem identidade. Imagens como "Astro doido a sonhar" e "A grande ave dourada" comprovam a idealização do passado.
D) Sente-se perdido, frustrado, morto interiormente, sem forças para voltar a ser o que era. " Não me acho no que projeto" / "Tenho a alma amortalhada"

2.
A) Esses versos revelam a falta de identidade; o eu lírico não reconhece a si mesmo.
B) "E hoje, quando me sinto, / É com saudades de mim", e toda a 9ª estrofe.

3.
O título está relacionado com a diluição do ser, com a perda da identidade original e com a busca de uma nova identidade.


LEITURA

Quase

Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...


Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num grande mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor! - quase vivido...

Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim - quase a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!


De tudo houve um começo ... e tudo errou...
- Ai a dor de ser - quase, dor sem fim...
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou...

Momentos de alma que,desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas que não fixei...


Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...

Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...

Um pouco mais de sol - e fora brasa,
Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...



LEITURA

DISPERSÃO

Perdi-me dentro de mim 
Porque eu era labirinto, 
E hoje, quando me sinto, 
É com saudades de mim. 
  
Passei pela minha vida 
Um astro doido a sonhar. 
Na ânsia de ultrapassar, 
Nem dei pela minha vida... 
  
Para mim é sempre ontem, 
Não tenho amanhã nem hoje: 
O tempo que aos outros foge 
Cai sobre mim feito ontem. 
  
(O Domingo de Paris 
Lembra-me o desaparecido 
Que sentia comovido 
Os Domingos de Paris: 
  
Porque um domingo é família, 
É bem-estar, é singeleza, 
E os que olham a beleza 
Não têm bem-estar nem família). 
  
O pobre moço das ânsias... 
Tu, sim, tu eras alguém! 
E foi por isso também 
Que te abismaste nas ânsias. 
  
A grande ave dourada 
Bateu asas para os céus, 
Mas fechou-as saciada 
Ao ver que ganhava os céus. 
  
Como se chora um amante, 
Assim me choro a mim mesmo: 
Eu fui amante inconstante 
Que se traiu a si mesmo. 
  
Não sinto o espaço que encerro 
Nem as linhas que projeto: 
Se me olho a um espelho, erro — 
Não me acho no que projeto. 
  
Regresso dentro de mim 
Mas nada me fala, nada! 
Tenho a alma amortalhada, 
Sequinha, dentro de mim. 
  
Não perdi a minha alma, 
Fiquei com ela, perdida.  
Assim eu choro, da vida, 
A morte da minha alma. 
  
Saudosamente recordo 
Uma gentil companheira 
Que na minha vida inteira 
Eu nunca vi... Mas recordo 
  
A sua boca doirada 
E o seu corpo esmaecido, 
Em um hálito perdido 
Que vem na tarde doirada. 
  
(As minhas grandes saudades 
São do que nunca enlacei.  
Ai, como eu tenho saudades 
Dos sonhos que não sonhei!... 
  
E sinto que a minha morte — 
Minha dispersão total — 
Existe lá longe, ao norte, 
Numa grande capital. 
  
Vejo o meu último dia 
Pintado em rolos de fumo, 
E todo azul-de-agonia 
Em sombra e além me sumo. 
  
Ternura feita saudade, 
Eu beijo as minhas mãos brancas... 
Sou amor e piedade 
Em face dessas mãos brancas... 
  
Tristes mãos longas e lindas 
Que eram feitas pra se dar 
Ninguém mais quis apertar 
Tristes mãos longas e lindas 
  
Eu tenho pena de mim, 
Pobre menino ideal... 
Que me faltou afinal? 
Um elo? Um rastro?... Ai de mim!... 
  
Desceu-me na alma o crepúsculo; 
Eu fui alguém que passou. 
Serei, mas já não me sou; 
Não vivo, durmo o crepúsculo. 
  
Álcool dum sono outonal 
Me penetrou vagamente 
A difundir-me dormente 
Em urna bruma outonal. 
  
Perdi a morte e a vida, 
E, louco, não enlouqueço... 
A hora foge vivida, 
Eu sigo-a, mas permaneço,... 
.................................. 
Castelos desmantelados, 
Leões alados sem juba 
......................................

                 BONS ESTUDOS!