terça-feira, 29 de março de 2022

Meu sonho ( Álvares de Azevedo: Lira dos vinte anos) - Exercícios com gabarito

 

                            Meu sonho ( Álvares de Azevedo: Lira dos vinte anos)

Eu

Cavaleiro das armas escuras,

Onde vais pelas trevas impuras

Com a espada sanguenta na mão?

Por que brilham teus olhos ardentes

E gemidos nos lábios frementes

Vertem fogo do teu coração?

 

 Cavaleiro, quem és? O remorso?

Do corcel te debruças no dorso...

E galopas do vale através...

Oh! Da estrada acordando as poeiras

Não escutas gritar as caveiras

E morder-te o fantasma nos pés?

 

Onde vais pelas trevas impuras,

Cavaleiro das armas escuras,

Macilento qual morto na tumba?...

Tu escutas... Na longa montanha

Um tropel teu galope acompanha?

E um clamor de vingança retumba?

 

Cavaleiro, quem és? --- que mistério,

Quem te força da morte no império,

Pela noite assombrada a vagar?

 

O fantasma

Sou o sonho de tua esperança,

Tua febre que nunca descansa,

O delírio que te há de matar!...

AZEVEDO, Álvares de. Lira dos vinte anos. Rio de Janeiro: Garnier, 1994. p. 153.

 

Releitura

1. Frequentemente o individualismo romântico torna-se um egocentrismo doentio, que provoca a recusa e a fuga da realidade. Em qual dimensão da vivência do sujeito lírico ocorre o diálogo com o misterioso cavaleiro?

Ocorre na dimensão do sonho, da fantasia ou do delírio.

2. O que a figura do cavaleiro representa?

Representa a morte, motivada pelos sonhos de esperança e pelos delírios do sujeito lírico.

3. No Romantismo, a descrição da natureza tem função expressiva, ecoando os estados de espírito do sujeito lírico: a noite, os ventos, a tempestade refletem as angústias, o desespero, o medo, o terror; o luar emoldura a melancolia, a saudade, os suspiros amorosos; os lugares ermos, as montanhas, os vales, os desertos são os ambientes da solidão e da esperança.

a) Faça uma lista das expressões que descrevem o ambiente fantasmagórico do poema.

“trevas impuras”, “galopas do vale através”, “da estrada acordando as poeiras”, “gritar as caveiras”, “morder-te o fantasma nos pés?”, “longa montanha”, “noite assombrada” etc.

b) Que sentimentos esse ambiente reflete?

Reflete os sentimentos pessimistas do sujeito lírico: solidão, desespero de viver, fatalismo.


                              BONS ESTUDOS!

 

 

 

 

 

 

terça-feira, 22 de março de 2022

Triste fim de Policarpo Quaresma: exercícios com gabarito

 

 

O fragmento a seguir situa-se no último capítulo de Triste fim de Policarpo Quaresma e mostra Quaresma logo após ter denunciado ao presidente marechal Floriano Peixoto as injustiças feitas aos prisioneiros na prisão.

                                        



            Como lhe parecia ilógico com ele mesmo estar ali metido naquele estreito calabouço? Pois ele, o Quaresma plácido, o Quaresma de tão profundos pensamentos patrióticos, merecia aquele triste fim? De que maneira sorrateira o Destino o arrastara até ali, sem que ele pudesse pressentir o seu extravagante propósito, tão aparentemente sem relação com o resto da sua vida? Teria sido ele com os seus atos passados, com as suas ações encadeadas no tempo, que fizera com que aquele velho deus docilmente o trouxesse até à execução de tal desígnio? Ou teriam sido os fatos externos, que venceram a ele, Quaresma, e fizeram-no escravo da sentença da onipotente divindade? Ele não sabia, e, quando teimava em pensar, as duas coisas se baralhavam, se emaranhavam e a conclusão certa e exata lhe fugia.

            Não estava ali há muitas horas. Fora preso pela manhã, logo ao erguer-se da cama; e, pelo cálculo aproximado do tempo, pois estava sem relógio e mesmo se o tivesse não poderia consultá-lo à fraca luz da masmorra, imaginava podiam ser onze horas.

            Por que estava preso? Ao certo não sabia; o oficial que o conduzira, nada lhe quisera dizer; e, desde que saíra da ilha das Enxadas para a das Cobras, não trocara palavra com ninguém, não vira nenhum conhecido no caminho, nem o próprio Ricardo que lhe podia, com um olhar, com um gesto, trazer sossego às suas dúvidas. Entretanto, ele atribuía a prisão à carta que escrevera ao presidente, protestando contra a cena que presenciara na véspera.

            Não se pudera conter. Aquela leva de desgraçados a sair assim, a desoras, escolhidos a esmo, para uma carniçaria distante, falara fundo a todos os seus sentimentos; pusera diante dos seus olhos todos os seus princípios morais; desafiara a sua coragem moral e a sua solidariedade humana; e ele escrevera a carta com veemência, com paixão, indignado. Nada omitiu do seu pensamento; falou claro, franca e nitidamente.

            Devia ser por isso que ele estava ali naquela masmorra, engaiolado, trancafiado, isolado dos seus semelhantes como uma fera, como um criminoso, sepultado na treva, sofrendo umidade, misturado com os seus detritos, quase sem comer... Como acabarei? Como acabarei? E a pergunta lhe vinha, no meio da revoada de pensamentos que aquela angústia provocava pensar. Não havia base para qualquer hipótese. Era de conduta tão irregular e incerta o Governo que tudo ele podia esperar: a liberdade ou a morte, mais esta que aquela.

            O tempo estava de morte, de carnificina; todos tinham sede de matar, para afirmar mais a vitória e senti-la bem na consciência coisa sua, própria, e altamente honrosa.

            Iria morrer, quem sabe se naquela noite mesmo? E que tinha ele feito de sua vida? Nada. Levara toda ela atrás da miragem de estudar a pátria, por amá-la e querê-la muito, no intuito de contribuir para a sua felicidade e prosperidade. Gastara a sua mocidade nisso, a sua virilidade também; e, agora que estava na velhice, como ela o recompensava, como ela o premiava, como ela o condecorava? Matando-o. E o que não deixara de ver, de gozar, de fruir, na sua vida? Tudo. Não brincara, não pandegara, não amara - todo esse lado da existência que parece fugir um pouco à sua tristeza necessária, ele não vira, ele não provara, ele não experimentara.

            Desde dezoito anos que o tal patriotismo lhe absorvia e por ele fizera a tolice de estudar inutilidades. Que lhe importavam os rios? Eram grandes? Pois que fossem... Em que lhe contribuiria para a felicidade saber o nome dos heróis do Brasil? Em nada... O importante é que ele tivesse sido feliz. Foi? Não. Lembrou-se das suas coisas de tupi, do folclore, das suas tentativas agrícolas... Restava disso tudo em sua alma uma satisfação? Nenhuma! Nenhuma!

O tupi encontrou a incredulidade geral, o riso, a mofa, o escárnio; e levou-o à loucura. Uma decepção. E a agricultura? Nada. As terras não eram ferazes e ela não era fácil como diziam os livros. Outra decepção. E, quando o seu patriotismo se fizera combatente, o que achara? Decepções. Onde estava a doçura de nossa gente? Pois ele não a viu combater como feras? Pois não a via matar prisioneiros, inúmeros? Outra decepção. A sua vida era uma decepção, uma série, melhor, um encadeamento de decepções.

                                                                                 http://www.spectroeditora.com.br/

 

1. Policarpo Quaresma participava como voluntário na Revolta da Armada, ao lado de Floriano Peixoto, quando foi preso. De acordo com as pistas do texto, levante hipóteses:

a) Por que Quaresma foi preso?  Por ter feito uma crítica ao modo como os presos eram tratados na prisão.

b) O que provavelmente ele viu na prisão, e o teria levado a escrever a carta-denúncia?

Quaresma, como carcereiro, vira presos serem levados para serem fuzilados às escondidas.

c) Como Quaresma supõe que Floriano Peixoto interpretou essa iniciativa dele?

Como traição.

2. Na prisão, Quaresma faz uma retrospectiva e uma avaliação de sua vida, de sua conduta e de seus valores. A que conclusão chega?

Ele chega à conclusão de que tudo fora inútil, pois não houve reconhecimento de seus esforços pelo bem do Brasil.

3. Observe estes fragmentos do texto:

“e agora que estava na velhice, como ela [a pátria] o recompensava, como ela o premiava, como ela o condecorava? Matando-o.”

“Onde estava a doçura de nossa gente? Pois ele não a viu combater como feras?

a) Nesses fragmentos, a quem Quaresma atribui a responsabilidade, respectivamente, por sua prisão e pela violência da guerra?

À pátria e ao povo.

b) Quem, na verdade, tinha responsabilidade por tais ocorrências?

O governo do marechal Floriano.

c) Apesar de Quaresma fazer uma autocrítica, que característica da personagem ainda se mantém nesses fragmentos?

A ingenuidade.

4. No texto, é empregada a técnica do discurso indireto livre. Identifique um trecho em que tal recurso foi utilizado e explique o efeito de sentido que ele provoca no texto.

“Como acabarei? Como acabarei?”. O emprego do discurso indireto livre permite retratar de modo mais aprofundado o estado psicológico de Quaresma na prisão.

5. No final do texto se lê: “ A sua vida era uma decepção, uma série, melhor, um encadeamento de decepções”. Explique a diferença de sentido entre “série de decepções” e “encadeamento de decepções”.

“Série de decepções” dá uma noção de sequência, apenas. Já “encadeamento de decepções” dá uma ideia de causa e efeito, isto é, uma decepção leva a outra, e assim sucessivamente.

6. Policarpo Quaresma, muitas vezes associado a D. Quixote, personagem de Miguel de Cervantes, é um típico herói problemático. Explique por quê.

Porque era um idealista, um visionário, que se frustra ao ver que seus projetos não são compatíveis com a realidade do país.

7. Pode-se dizer que o romance Triste fim de Policarpo Quaresma faz uma crítica à sociedade da época. Qual é o alvo dessa crítica?

Entre outras possibilidades: por um lado, o nacionalismo ingênuo e desprovido de críticas cultivado por algumas pessoas e grupos sociais; por outro, o autoritarismo e a falta de valores éticos e morais dos governantes.


                       BONS ESTUDOS!

FONTE: 

Cereja, William Roberto

       Português linguagens: volume 3 / William Roberto Cereja, Thereza Cochar Magalhães. - 7. ed. reform. - São Paulo: Saraiva 2010.

segunda-feira, 21 de março de 2022

Continuidade dos parques, de Julio Cortázar ( Exercícios com gabarito)

                      Continuidade dos parques

                                               Julio Cortázar

 

                        


 

            Começara a ler o romance dias antes. Abandonou-o por negócios urgentes, voltou à leitura quando regressava de trem à fazenda; deixava-se interessar lentamente pela trama, pelo desenho dos personagens. Essa tarde, depois de escrever uma carta a seu procurador e discutir com o capataz uma questão de parceria, voltou ao livro na tranquilidade do escritório que dava para o parque de carvalhos. Recostado em sua poltrona favorita, de costas para a porta que o teria incomodado como uma irritante possibilidade de intromissões, deixou que sua mão esquerda acariciasse de quando em quando o veludo verde e se pôs a ler os últimos capítulos. Sua memória retinha sem esforço os nomes e as imagens dos protagonistas; a fantasia novelesca absorveu-o quase em seguida. Gozava do prazer meio perverso de se afastar linha a linha daquilo que o rodeava, e sentir ao mesmo tempo que sua cabeça descansava comodamente no veludo do alto respaldo, que os cigarros continuavam ao alcance da mão, que além dos janelões dançava o ar do entardecer sob os carvalhos. Palavra por palavra, absorvido pela trágica desunião dos heróis, deixando-se levar pelas imagens que se formavam e adquiriam cor e movimento, foi testemunha do último encontro na cabana do monte. Primeiro entrava a mulher, receosa; agora chegava o amante, a cara ferida pelo chicotaço de um galho. Ela estancava admiravelmente o sangue com seus beijos, mas ele recusava as carícias, não viera para repetir as cerimônias de uma paixão secreta, protegida por um mundo de folhas secas e caminhos furtivos. O punhal ficava morno junto a seu peito, e debaixo batia a liberdade escondida. Um diálogo envolvente corria pelas páginas como um riacho de serpentes, e sentia-se que tudo estava decidido desde o começo. Mesmo essas carícias que envolviam o corpo do amante, como que desejando retê-lo e dissuadi-lo, desenhavam desagradavelmente a figura de outro corpo que era necessário destruir. Nada fora esquecido: impedimentos, azares, possíveis erros. A partir dessa hora, cada instante tinha seu emprego minuciosamente atribuído. O reexame cruel mal se interrompia para que a mão de um acariciasse a face do outro. Começava a anoitecer.

            Já sem se olhar, ligados firmemente à tarefa que os aguardava, separaram-se na porta da cabana. Ela devia continuar pelo caminho que ia ao Norte. Do caminho oposto, ele se voltou um instante para vê-la correr com o cabelo solto. Correu por sua vez, esquivando-se de árvores e cercas, até distinguir na rósea bruma do crepúsculo a alameda que levaria à casa. Os cachorros não deviam latir, e não latiram. O capataz não estaria àquela hora, e não estava. Subiu os três degraus do pórtico e entrou. Pelo sangue galopando em seus ouvidos chegavam-lhe as palavras da mulher: primeiro uma sala azul, depois uma varanda, uma escadaria atapetada. No alto, duas portas. Ninguém no primeiro quarto, ninguém no segundo. A porta do salão, e então o punhal na mão, a luz dos janelões, o alto respaldo de uma poltrona de veludo verde, a cabeça do homem na poltrona lendo um romance.

                                                Do livro Final do jogo. Tradução de Remy Gorga Filho

 

1. O conto está centrado na figura de um leitor.

a) Considere as informações sobre ele e trace um perfil.

O personagem leitor do romance parece ser um homem que gosta de ler e que é abastado, uma vez que tem um sítio e conta com o trabalho de funcionários como um mordomo e um procurador.

b) Descreva o ambiente onde a personagem se encontra. O que ele sugere.

Um escritório com vista para um parque de carvalhos e poltrona de veludo verde de espaldar alto. Sugere conforto, aconchego.

2. O espaço está dividido principalmente entre o escritório e o parque dos carvalhos.

a) Que outra divisão a duplicidade do espaço marca?

Divisão entre a realidade (dos negócios urgentes, da carta ao procurador, da discussão com o mordomo) e a história que a personagem lê no romance.

b) Como essa divisão é quebrada?

Ela é quebrada ao final do conto, quando a história do romance chega à realidade do escritório da personagem e a sua figura sentada na poltrona.

3. O romance que o leitor personagem lê conta com muitas peripécias, ou seja, acontecimentos que marcam mudanças na trajetória da história. As peripécias são muito presentes nos folhetins: histórias publicadas em capítulos no rodapé dos jornais do século XIX cujos finais eram marcados por uma peripécia que deixava o leitor querendo saber como continuaria a história. Esse recurso de construção narrativa garantia o interesse do leitor e a venda das edições seguintes do jornal.

a) Quais acontecimentos presentes no romance podem ser considerados típicos desse tipo de história?

A paixão secreta, o encontro proibido entre os amantes em uma cabana, os beijos, “as cerimônias de uma paixão secreta”, o punhal furtivo, álibis, a separação em caminhos opostos, a mulher correr com o cabelo solto no crepúsculo etc. Além disso, o final marcado por uma tensão sobre o que acontecerá em seguida seria um gancho para causar no leitor a vontade de continuar a leitura.

b) Que tipo de envolvimento a personagem do conto tem com o romance que lê?

Ela se entrega à história, deixa-se absorver por ela.

4. O conto tem um ponto que marca a fusão dos espaços.

a) Copie o trecho em que isso acontece.

“Palavra por palavra, absorvido pela trágica desunião dos heróis, deixando-se levar pelas imagens que se formavam e adquiriam cor e movimento, foi testemunha do último encontro na cabana do monte”.

b) Releia: “Mesmo essas carícias que envolviam o corpo do amante, como que desejando retê-lo e dissuadi-lo, desenhavam desagradavelmente a figura de outro corpo que era necessário destruir”. Qual corpo é preciso destruir?

O texto sugere que, ao encontrar com o amante, a mulher pensa sobre destruir o corpo de seu marido para poder se entregar à paixão proibida.

5. O final do conto guarda uma surpresa para o leitor.

a) Qual leitor é surpreendido?

Tanto o leitor do romance como o do conto de Cortázar.

b) O leitor do romance, nesse contexto, é leitor ou personagem? Explique.

O leitor do romance é duplamente personagem: do conto de Cortázar e do romance que lê.

6. O conto de Cortázar pode ser lido como uma brincadeira que o autor faz com o leitor de seu próprio conto. Mas também pode ser entendido como uma crítica à condição de um certo tipo de leitor.

a) Nesse jogo com o leitor do conto de Cortázar, o que sugere a cena final?

Sugere que qualquer leitor pode ser apunhalado pela surpresa da trama se mantiver uma postura ingênua diante do que lê.

b) Compreender esse tipo de jogo exige uma atitude diferente da que o leitor personagem do conto mantém diante do romance que lê. Qual atitude se exige?

Exige uma atitude participativa da construção do sentido do texto, não apenas de “entrar na história”, mas também de questioná-la.

7. Todo texto defende uma ideia. Considere as reflexões que a questão 6 provocou e responda: que ideia o conto de Cortázar defende? Do que ele fala em sua camada propositiva?

Resposta pessoal.

8. Que explicação poderia justificar o título do conto?

A ideia de continuidade se traduz na circularidade do conto, que termina dentro do mesmo espaço onde começa, trazendo para dentro do gabinete a trama que sai do livro e continua no espaço da realidade do leitor personagem; a ideia de continuidade também está presente no jogo com o leitor do conto de Cortázar, que se projeta na personagem, que tanto pode se envolver na trama relatada quanto se surpreender diante do inesperado final.

 

Fonte:

Campos, Maria Tereza Rangel Arruda

     Multiversos: língua portuguesa: ensino médio/

Maria Tereza Rangel Arruda Campos, Lucas Kiyoharu

Sanches Oda. – 1. ed. – São Paulo: FTD, 2020.


domingo, 20 de março de 2022

Confronto, de Carlos Drummond de Andrade - Exercícios com gabarito



 Confronto ( Carlos Drummond de Andrade)

Bateu Amor à porta da Loucura.

"Deixa-me entrar - pediu - sou teu irmão.

Só tu me limparás da lama escura

a que me conduziu minha paixão."


A Loucura desdenha recebê-lo,

sabendo quanto Amor vive de engano,

mas estarrece de surpresa ao vê-lo,

de humano que era, assim tão inumano.


E exclama: "Entra correndo, o pouso é teu.

Mais que ninguém mereces habitar 

minha casa infernal, feita de breu,


enquanto me retiro, sem destino,

pois não sei de mais triste desatino

que este mal sem perdão, o mal de amar."


1. Esse soneto de Drummond narra uma história. Quem são os personagens dessa história?

O Amor e a Loucura.

2. Por que o soneto tem este título: "Confronto"? Explique sua resposta.

Porque acontece um confronto entre o Amor e a Loucura. O Amor bate `a casa da Loucura pedindo abrigo. A Loucura, inicialmente, não quer recebê-lo, mas resolve deixar que ele habite sua casa. E vai embora.

3. Que argumento o Amor usa para convencer a Loucura a deixá-lo habitar sua casa?

O Amor se apresentou como irmão da Loucura.

4. O que significa dizer que o Amor é irmão da Loucura?

Significa dizer que a paixão pode levar as pessoas ao desatino, à loucura. A casa da loucura é "infernal", "cheia de breu", ou seja, amar pode significar, segundo as representações do texto, viver na escuridão.

5. Você concorda com essa forma de ver o amor?

Resposta pessoal.



Rosa de Hiroshima, de Vinicius de Moraes (EXERCÍCIOS COM GABARITO)

                            

Rosa de Hiroshima (Vinicius de Moraes)

 


Pensem nas crianças

Mudas telepáticas

Pensem nas meninas

Cegas inexatas

Pensem nas mulheres

Rotas alteradas

Pensem nas feridas

Como rosas cálidas

Mas, oh, não se esqueçam

Da rosa da rosa

Da rosa de Hiroshima

A rosa hereditária

A rosa radioativa

Estúpida e inválida

A rosa com cirrose

A antirrosa atômica

Sem cor sem perfume

Sem rosa, sem nada

 

ATIVIDADES DE LEITURA

1. Qual é o assunto do poema de Vinícius de Moraes?

O poema fala da bomba de Hiroshima e denuncia o horror da guerra.

2. Procure explicar seu título.

A palavra “rosa”, neste título, é muito significativa. Ela remete à imagem da explosão da bomba, uma imagem de horror. Vinícius de Moraes desconstrói a associação da rosa com a beleza e a delicadeza para falar de uma rosa destrutiva, a bomba, a antirrosa.

3. Na primeira parte do poema, o poeta pede que pensemos nas crianças, meninas, mulheres, vítimas da bomba.

3.1. Sinalize, no texto, os adjetivos que caracterizam as vítimas da guerra atômica.

3.2. Procure explicar o sentido desses adjetivos.

Os adjetivos podem ser lidos como referência aos terríveis traumas psicológicos (“mudas/telepáticas”) ou físicos (“cegas/inexatas”), deixados pela guerra. A qualificação das mulheres como “rotas alteradas” faz referência às alterações genéticas que se verificaram, tempos depois, nos filhos das mulheres que sofreram a guerra atômica.

4. Na segunda parte do poema, o poeta qualifica a Rosa de Hiroshima como uma antirrosa.

4.1. Destaque, no texto, os adjetivos que ele utiliza para qualificar a rosa.

4.2. Procure explicar o sentido desses adjetivos.

A rosa hereditária, radioativa – os adjetivos fazem referência ao poder destrutivo da bomba, às deformações genéticas que deixou em muitas gerações.

A rosa estúpida e inválida – com essa adjetivação o poeta condena a bomba, a guerra.

A bomba é a rosa “sem cor, sem perfume, sem rosa, sem nada” – a bomba é a rosa que não é rosa.

                                                                            BONS ESTUDOS!

segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

Uma vela para Dario, de Dalton Trevisan (exercícios com gabarito)

 

Uma vela para Dario    

                                                                          Dalton Trevisan

            Dario vem apressado, guarda-chuva no braço esquerdo. Assim que dobra a esquina, diminui o passo até parar, encosta-se a uma parede. Por ela escorrega, senta-se na calçada, ainda úmida de chuva. Descansa na pedra o cachimbo.

            Dois ou três passantes à sua volta indagam se não está bem. Dario abre a boca, move os lábios, não se ouve resposta. O senhor gordo, de branco, diz que deve sofrer de ataque.

            Ele reclina-se mais um pouco, estendido na calçada, e o cachimbo apagou. O rapaz de bigode pede aos outros se afastem e o deixem respirar. Abre-lhe o paletó, o colarinho, a gravata e a cinta. Quando lhe tiram os sapatos, Dario rouqueja feio, bolhas de espuma surgem no canto da boca.

            Cada pessoa que chega ergue-se na ponta dos pés, não o pode ver. Os moradores da rua conversam de uma porta a outra, as crianças de pijama acodem à janela. O senhor gordo repete que Dario sentou-se na calçada, soprando a fumaça do cachimbo, encostava o guarda-chuva na parede. Mas não se vê guarda-chuva ou cachimbo a seu lado.

            A velhinha de cabeça grisalha grita que ele está morrendo. Um grupo o arrasta para o táxi da esquina. Já no carro a metade do corpo, protesta o motorista: quem pagará a corrida? Concordam chamar a ambulância. Dario conduzido de volta e recostado à parede não tem os sapatos nem o alfinete de pérola na gravata.

            Alguém informa da farmácia na outra rua. Não carregam Dario além da esquina; a farmácia no fim do quarteirão e, além do mais, muito peso. É largado na porta de uma peixaria. Enxame de moscas lhe cobrem o rosto, sem que façam um gesto para espantá-las.

            Ocupado o café próximo pelas pessoas que apreciam o incidente e, agora, comendo e bebendo, gozam as delícias da noite. Dario em sossego e torto no degrau da peixaria, sem o relógio de pulso.

            Um terceiro sugere lhe examinem os papéis, retirados com vários objetos de seus bolsos e alinhados sobre a camisa branca. Ficam sabendo do nome, idade, sinal de nascença. O endereço na carteira é de outra cidade.

            Registra-se correria de uns duzentos curiosos que, a essa hora, ocupam toda a rua e as calçadas: é a polícia. O carro negro investe a multidão. Várias pessoas tropeçam no corpo de Dario, pisoteado dezessete vezes.

            O guarda aproxima-se do cadáver, não pode identificá-lo os bolsos vazios. Resta na mão esquerda a aliança de ouro, que ele próprio quando vivo só destacava molhando no sabonete. A polícia decide chamar o rabecão.

            A última boca repete Ele morreu, ele morreu. A gente começa a se dispersar. Dario levou duas horas para morrer, ninguém acreditava estivesse no fim. Agora, aos que alcançam vê-lo, todo o ar de um defunto.

            Um senhor piedoso dobra o paletó de Dario para lhe apoiar a cabeça. Cruza as mãos no peito. Não consegue fechar olho nem boca, onde a espuma sumiu. Apenas um homem morto e a multidão se espalha, as mesas do café ficam vazias. Na janela alguns moradores com almofadas para descansar os cotovelos.

            Um menino de cor e descalço vem com uma vela, que acende ao lado do cadáver. Parece morto há muitos anos, quase o retrato de um morto desbotado pela chuva.

            Fecham-se uma a uma as janelas. Três horas depois, lá está Dario à espera do rabecão. A cabeça agora na pedra, sem o paletó. E o dedo sem a aliança. O toco de vela apaga-se às primeiras gotas da chuva, que volta a cair.

ATIVIDADES DE LEITURA

1. De que trata o texto de Dalton Trevisan? O que o título do texto sugere?

O texto narra a história de Dario, um homem, um desconhecido, que morre sem socorro na calçada de uma cidade. A indiferença das pessoas à situação de Dario é uma forma de condenar a violência que marca as relações. Poucos transeuntes se comovem com o drama de Dario, como o menino que lhe oferece uma vela, quando ele já está morto.

2. Recupere alguns elementos dessa narrativa:

2.1. Onde ocorrem os fatos narrados?

Numa cidade indefinida, talvez numa cidade grande.

2.2. Quando ocorrem?

Não há indicação precisa de tempo.

2.3. Quem é Dario? Descreva esse personagem.

Dario, o protagonista da narrativa, é um desconhecido, que pode ser um homem mais velho: levava um cachimbo, usava chapéu, paletó.

2.4. Quem são os demais personagens da narrativa?

São todos personagens desconhecidos e anônimos: “o senhor gordo, de branco”; “o rapaz de bigode”; “a velhinha de cabeça grisalha”; “um terceiro”; “um senhor piedoso” etc.

2.5. Como agem esses personagens que assistem ao drama de Dario?

Alguns poucos personagens se solidarizam, tentam ajudar e se comovem. A maioria, no entanto, assiste fria e cruelmente à morte de Dario: há os indiferentes, que olham a cena com curiosidade; outros se aproveitam da situação e furtam objetos de Dario; outros lhe negam socorro, como o motorista do táxi, e ainda há aqueles que o pisoteiam, apressados e indiferentes ao seu drama.

3. Quando tem início o conflito da narrativa?

Logo no início do conto. Podemos dizer que o conto tem início com o elemento complicador. Um homem vem andando pela rua, sente-se mal e cai na calçada. Esse conflito, ou problema, mobiliza todos os fatos da narrativa. A partir dele cria-se a tensão narrativa. Há apenas uma pequena descrição de Dario (“Vinha apressado, guarda-chuva no braço esquerdo”), antes que o leitor mergulhe na trama pela introdução do conflito.

4. Qual é o foco narrativo do conto lido?

O conto é narrado em primeira pessoa. Um narrador observador conta, de forma bastante objetiva, a história de Dario.


BONS ESTUDOS!

Conto "Apelo", de Dalton Trevisan (Exercícios)

 


 (O Conto)

Texto para as questões de 1 a 7. 

 

APELO 

Amanhã faz um mês que a Senhora está longe de casa. Primeiros dias, para dizer a verdade, não senti falta, bom chegar tarde, esquecido na conversa de esquina. Não foi ausência por uma semana: o batom ainda no lenço, o prato na mesa por engano, a imagem de relance no espelho.

 Com os dias, Senhora, o leite primeira vez coalhou. A notícia de sua perda veio aos poucos: a pilha de jornais ali no chão, ninguém os guardou debaixo da escada. Toda a casa era um corredor deserto, e até o canário ficou mudo. Para não dar parte de fraco, ah, Senhora, fui beber com os amigos. Uma hora da noite e eles se iam e eu ficava só, sem o perdão de sua presença a todas as aflições do dia, como a última luz na varanda.

 E comecei a sentir falta das pequenas brigas por causa do tempero na salada − o meu jeito de querer bem. Acaso é saudade, Senhora? Às suas violetas, na janela, não lhes poupei água e elas murcham. Não tenho botão na camisa, calço a meia furada. Que fim levou o saca-rolhas? Nenhum de nós sabe, sem a Senhora, conversar com os outros: bocas raivosas mastigando. Venha para casa, Senhora, por favor.

                                             (Dalton Trevisan) 

 

 1. Apesar do texto “Apelo” ser um conto, ele possui características que o aproximam de outro gênero textual.


1.1 Que gênero é esse:

 

a) uma crônica       

b) uma carta          

c) um poema   d) um artigo de opinião

 

1.2  Qual o efeito produzido pela escolha desse título?


Ao construir seu conto em forma de carta, o autor confere ao texto um caráter mais intimista e realista, pois o personagem dirige-se diretamente à esposa, expondo seus sentimentos.


2. O homem diz não ter sentido a falta da mulher imediatamente. O que mudou isso?

 

Com o passar dos dias, a ausência da esposa foi ficando em evidência, por causa do trabalho acumulado, que antes ela desempenhava, e pelo vazio que permeava a casa.

 3. Observe que o texto de Dalton Trevisan está organizado em três parágrafos. Indique a ideia central de cada parágrafo.


Parágrafo 1: O aparente descaso em relação à ausência da Senhora.

Parágrafo 2: A saudade, que não é verbalizada, mas aparece no reconhecimento das tarefas que se acumulam e que, antes, eram realizadas pela esposa.

Parágrafo 3: A saudade reconhecida de forma indireta e o apelo do homem para que a Senhora volte para casa.


4. Releia o trecho abaixo:


"Nenhum de nós sabe, sem a Senhora, conversar com os outros: bocas raivosas mastigando"


4.1  A quem possivelmente se refere o pronome "nós"?


Provavelmente, o "nós" refere-se aos membros da família formada pelo narrador personagem e a Senhora.


4.2 A partir do trecho destacado, qual o papel da Senhora na relação entre os membros dessa família?


É possível inferir, através desse trecho, que a Senhora exerce a função de estabelecer um elo entre os membros dessa família, que, diante da sua ausência, sequer conseguem estabelecer diálogo durante as refeições.


5. Assinale a opção que contém a frase que justifica o título do texto. 

 

a) “Com os dias, Senhora, o leite primeira vez coalhou.” 

b) “Toda a casa era um corredor deserto...” 

c) “Acaso é saudade, Senhora?” 

d) “Que fim levou o saca-rolhas?” 

e) “Venha para casa, Senhora, por favor.”

 

6. Assinale a opção que justifica a afirmativa “Primeiros dias, para dizer a verdade, não senti falta”.

a) A quebra da rotina traz a sensação de liberdade.

b) A relação amorosa estabelece limites para a liberdade de cada um.

c) A sensação de liberdade faz falta a algumas pessoas. 

d) O estranhamento causado pela ausência do ser amado é acentuado pela rotina.

e) O novo tem um apelo encantatório, que afasta o sentimento da ausência.

 

 

7. carinho do homem pela mulher agora ausente manifestava-se por meio da(s)

 a) falta de botão na camisa. 

 b) bebida partilhada com os amigos. 

 c) conversa demorada na esquina. 

 d) presença aconchegante ao fim da jornada.

 e) discussões sem importância às refeições.

 

 

BONS ESTUDOS!

segunda-feira, 19 de outubro de 2020

Felicidade Clandestina, de Clarice Lispector - exercícios com gabarito

 Felicidade clandestina

Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinha um busto enorme, enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não bastasse enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria.

Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para aniversário, em vez de pelo menos um livrinho barato, ela nos entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai. Ainda por cima era de paisagem do Recife mesmo, onde morávamos, com suas pontes mais do que vistas. Atrás escrevia com letra bordadíssima palavras como “data natalícia” e “saudade”.

Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingança, chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres. Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela não lia.

Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim uma tortura chinesa. Como casualmente, informou-me que possuía “As reinações de Narizinho”, de Monteiro Lobato.

Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o. E completamente acima de minhas posses. Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria.

Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança da alegria: eu não vivia, eu nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam.

No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num sobrado como eu, e sim numa casa. Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberta, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife. Dessa vez nem caí: guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez.

Mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono de livraria era tranquilo e diabólico. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa, com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do “dia seguinte” com ela ia se repetir com meu coração batendo.

E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo indefinido, enquanto o fel não escorresse todo de seu corpo grosso. Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra.

Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. Às vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados.

Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar entendendo. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler!

E o pior para essa mulher não era a descoberta do que acontecia. Devia ser a descoberta horrorizada da filha que tinha. Ela nos espiava em silêncio: a potência de perversidade de sua filha desconhecida e a menina loura em pé à porta, exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi então que, finalmente se refazendo, disse firme e calma para a filha: você vai emprestar o livro agora mesmo. E para mim: “E você fica com o livro por quanto tempo quiser”. Entendem? Valia mais do que me dar o livro: pelo tempo que eu quisesse ” é tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer.

Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo.

Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar… havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada.

Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo.

Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.

LISPECTOR, Clarice. Felicidade clandestina. Rio de Janeiro: Rocco, 1998. p. 9 – 12. 


1. Quem é a protagonista da história? Qual característica dessa personagem é ressaltada no primeiro e terceiro parágrafos?

A protagonista da história é a narradora.

A característica ressaltada em ambos os parágrafos é o fato de ser apaixonada por livros.

2. O conto “Felicidade clandestina” é narrado em primeira ou terceira pessoa? Justifique sua resposta.

Narrado em primeira pessoa; trata-se de um narrador-personagem.

3. Os personagens podem ser classificados como protagonistas (personagem mais importante da história) ou antagonista (aquele que se contrapões ao protagonista). Segundo a narradora do texto, qual era a única vantagem da personagem antagonista sobre as outras personagens e como ela utilizava essa vantagem para se vingar das colegas? 

 A personagem antagonista tinha um pai dono de livraria.

Ela se vingava das colegas deixando de lhes dar livros, mesmo quando faziam aniversário; em vez

disso, entregava a elas cartões-postais da loja do pai, com paisagens da própria cidade onde

viviam: Recife.

4. Releia a seguinte passagem do conto: 

“A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. ”

Em que sentido a felicidade é clandestina para a narradora? A fim de elaborar sua resposta, procure no dicionário o significado do adjetivo clandestino

 Para a narradora-personagem, a felicidade parece ser “clandestina”, ou seja, ilegal, ilegítima,

proibida por se tratar de um sentimento constantemente adiado “para o dia seguinte”.

5. Em “Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante”, a narradora refere-se à presença do livro em sua vida como um ritual de passagem da adolescência para a maturidade. Explique essa afirmação. 

 Essa afirmação refere-se ao livro como objeto erótico, à paixão por obtê-lo como antecipação da

paixão que, quando mulher, a narradora-personagem sentiria pelo homem a quem amasse.


BONS ESTUDOS!